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terça-feira, 17 de agosto de 2010

Entrevista de Mariana Ianelli

Pronúncia da alma

Denise Godinho: Que aspectos de sua literatura você considera que a inscrevem em nosso tempo? Há similitudes entre sua literatura e a produção de outros autores da mesma geração que a sua capazes de configurar alguma proximidade ou diálogo?Mariana Ianelli: Acho que somos todos herdeiros daquele “crepúsculo ontológico” sobre o qual falava George Steiner, referindo-se ao clima espiritual do século 20. A literatura do início do novo século responde a esse legado de diversas maneiras, absorvendo para a linguagem a violência, o acaso, o ceticismo, e também, em alguns casos, ousando um novo pacto de fé, mesmo que hoje um senso de comunidade geralmente desperte à força de uma tragédia em larga escala. É a esse princípio de fé que me alio, e que de algum modo inscreve meu trabalho na atualidade, por um aspecto humano básico de sede de sentido e de beleza. Percebo sinais de um renascimento do lirismo, de uma revalorização do primordial e do inefável na poesia, malgrado certa ânsia de desmistificação do trabalho criativo. Exemplo disso é o poema infinito de Marcelo Ariel e o trabalho de Gilberto Tadeu Nable, autores que me emocionam por uma afinidade de sentimento poético.DG: A exemplo do que alguns críticos chamaram de geração 90 e de outras escolas do passado, você acredita que faça parte de algo como uma geração 2000 ou de um trabalho literário que tenha, além de suas singularidades marcantes, também algo de coletivo ou transversal? Se isso existe, como se deveria denominar a sua geração?MI: Existem algumas linhas de força, sem dúvida, embora seja difícil caracterizá-las como definidoras de uma geração. Talvez um ponto de convergência entre essas diferentes tendências de criação e expressão verbal esteja na experiência do pensamento poético ela mesma, a experiência do pensamento em suas possibilidades de linguagem, presumivelmente um desdobramento da autoconsciência e da autocrítica características dos poetas da modernidade. Fato é que a aparente liberdade formal e expressiva não nos desobriga de um dever para com a linguagem, muito ao contrário, esse dever, ou ainda, essa lealdade se manifesta tanto em uma instância conceitual como na dimensão do imponderável, do caráter, digamos, sagrado da palavra. Daí que tão diferentes poéticas possam em algum ponto se encontrar.Como denominar nossa geração? Não saberia dizer, mas o poeta Alberto Pucheu, que propõe em seu trabalho poético um intercurso entre o literário e o filosófico, fala em uma poética do pensamento, em uma “literaturavida”, essa encruzilhada em que a palavra e o silêncio, a criação e a vida se procuram na linguagem.DG: Muitos sectários, incluindo críticos e jornalistas, ficaram congelados nos autores pré-anos 60, especialmente no que se convencionou chamar de modernismo, e afirmaram não encontrar nada de novo no que se produziu nas décadas subsequentes. No entanto, muita coisa inegavelmente surgiu de lá pra cá. Quais são as principais características dessa nova literatura contemporânea brasileira? O que há de peculiar nela? Em sua análise, que autores renovaram, de alguma forma, a literatura brasileira nos últimos 20 anos? Quem está renovando agora?MI: Por um lado, vejo uma poesia autoreferencial, metalinguística, e, mais do que isso, um pensamento poético pensando a si próprio, como queria Alain Badiou. Vejo também uma poesia que recupera o prestígio do verso, sem por isso deixar de estar profundamente inserida no contexto atual, por seu caráter reflexivo, suas camadas de significado. A meu ver, a trilogia de poemas em prosa de Juliano Garcia Pessanha (Sabedoria do Nunca; Ignorância do Sempre; Certeza do Agora – livros publicados entre 1999 e 2002) revitaliza o valor do conhecimento poético no seu impacto existencial. A obra poética de Paulo Henriques Britto também me parece ocupar um lugar importante na literatura em termos de renovação, pois conjuga de modo singularíssimo o coloquial e a forma clássica, além de dar novo frescor ao tema já exaustivamente perscrutado da metalinguagem. A poesia de Claudia Ahimsa é também renovadora, uma poesia de “pensamentos revolutivos”, como ela mesma diz, que revela uma mundividência, uma presença mítica e histórica do passado no mundo de hoje. Quem está renovando agora, eu diria, é Marcos Siscar, que acaba de lançar “Interior Via Satélite”, bela coletânea de poemas em prosa que, nos seus mais variados temas, põe a linguagem a refletir, em sua sintaxe, as nuances do próprio pensamento poético.DG: Em suas descobertas como leitor e autor, quem são os autores estreantes que mais vem lhe chamaram a atenção recentemente, mesmo que sejam promessas?Você poderia nos indicar alguns nomes entre primeiros livros, blogueiros ou contatos diretos com jovens talentos? Há algo vindo das universidades?MI: Eu destacaria o trabalho de Álvaro Miranda, com seu livro “A casa toda nave cega voa”, um conjunto de sonetos de grande apuro rítmico e concentração imagética que divagam poeticamente pelo tema da casa. O trabalho de Henrique Rodrigues, formado em Letras e mestre em Literatura, autor de “A musa diluída”, também merece destaque. Seus poemas renovam o verso clássico, têm densidade reflexiva. Outro belo livro é “Pássaro de Vidro”, estreia de Carlos Machado na poesia. Aliás, Carlos Machado é também criador do boletim poesia.net [www.algumapoesia.com.br], que traz quinzenalmente algum poeta da literatura brasileira ou estrangeira, clássico ou contemporâneo, o que nos oferece um riquíssimo panorama crítico-apresentativo, um trabalho ao qual o autor se dedica já há 7 anos.DG: De alguma forma você acha que os nomes mais estabelecidos devem ajudar a iniciar ou descobrir esses potenciais novos autores?MI: Acho importante que os veteranos estejam atentos aos novos e, na medida do possível, que colaborem com algum estímulo, sim. Mas acredito também que na iniciação de um poeta há sutilezas que não se ensinam, que escapam às questões de domínio técnico, um determinado nível de iniciação que precisa ser vivido solitária e individualmente, sem auxílio, e aqui me refiro à busca de uma voz própria, o que chamamos de estilo e Cristina Campo chamava de “pronúncia da alma”.DG: Em que medida as plataformas digitais e a Internet afetaram a produção literária? Confundem-se, nas discussões, as questões o futuro da literatura e o futuro do livro, como objeto material. O que você pensa sobre esses temas?MI: A internet proporcionou uma verdadeira avalanche de textos. Em termos de divulgação de novos escritores, a rede virtual funciona excelentemente, mas claro que há no meio disso um sem número de textos de qualidade duvidosa.Penso que em certa medida a ânsia de produtividade e auto-exposição também subtraem do processo criativo algo dessa condição fundamental de silêncio e paciência que contribui para o amadurecimento de um escritor. Quanto ao futuro do livro, não acredito absolutamente que as plataformas digitais venham a concorrer com o objeto material, acho que se trata apenas de um novo suporte. O livro terá sempre seus atrativos insubstituíveis, seu peso, sua textura, seu cheiro, tudo isso que desperta o prazer dos sentidos e faz tão íntimo o momento da leitura. A plataforma digital tem outras vantagens, de ordem prática, utilitária. © Mariana Ianelli - Entrevista concedida a Denise Godinho, para o site Offline


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