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quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Em novo livro, Marcelo Coelho usa o universo da Disney para satirizar mitos culturais, religiosos e políticos

ALCINO LEITE NETO EDITOR DA PUBLIFOLHAO escritor e jornalista Marcelo Coelho é um intelectual de fina erudição. Quem acompanha as suas colunas na Folha sabe com que desenvoltura e rigor ele passa da poesia de Valéry à música de Schoenberg, do pensamento de Adorno à literatura de Proust.Que leitor, entretanto, imaginaria que Coelho é também um cultíssimo “connaisseur” dos quadrinhos de Pato Donald e Tio Patinhas? E que um dia mergulharia de cabeça na mitologia de Disney para tirar daí a substância de um livro inteiro, “Patópolis”, que é lançado hoje?O título é tão perverso quanto o conteúdo. Atenção! Esta não é uma obra para crianças!É uma metralhadora giratória, que quer abater, com feroz compulsão satírica, tudo o que vê pela frente: a própria afetação erudita, os mitos culturais e políticos, o cristianismo, a publicidade, a mesquinhez da vida brasileira e, sobretudo, o persistente infantilismo de todos nós -inclusive do autor.“A única coisa levada a sério é o Pato Donald. Parafraseando Karl Marx, é como se a história se repetisse não como farsa, mas como história em quadrinhos”, afirma Coelho, que é membro do Conselho Editorial da Folha.O livro vai mais longe ainda em seu pessimismo e sua ironia. É como se não apenas a vida social tivesse sido “achatada” até o nível dos gibis, mas a realidade, ela mesma, não passasse de uma representação bidimensional.“É uma alucinação psicológica que me ocorre há anos, espero livrar-me dela depois deste livro”, diz.HUMOR DELIRANTEObra inclassificável, entre ensaio, ficção e memória, “Patópolis” é um arriscado experimento literário, que não respeita regras, cânones e nem mesmo o leitor, cuja seriedade é desafiada o tempo todo pelo humor delirante do autor.O livro se constrói por meio de uma espécie de escrita automática, que vai liberando um enxame de reflexões, associações de ideias e citações.A unidade do conjunto é garantida pela firmeza intelectual do projeto -e o resultado é um “divertimento” cruel até não poder mais.TRECHOSe em Patópolis, como em qualquer outra cidade, está em pleno vigor a separação entre animais e seres humanos, seria forçoso concluir que Donald não é propriamente um pato, nem Mickey, um rato, nem Pateta, um cachorro.São humanos como quaisquer outros de nós, apenas travestidos em animais. Não é impossível, aliás, imaginar em que tipo de bicho se transformariam nossos amigos, nossos parentes, o caixa do banco, o condutor do ônibus, o apresentador de um programa de TV. O rosto pendurado de um velho tio, mostrando o avesso prepucial e cor-de-rosa da pele das pálpebras inferiores, era digno de um sabujo; (…) priminhos recém-nascidos, cobertos de lã branca, eram coelhos convincentes.Eis que surge a voz de Sartre, coaxando de um café em Saint-Germain-des-Prés: “o homem é uma paixão inútil”. Ecoa, como de um sapo calvo em lagoa próxima, a voz de Foucault: “o homem é uma invenção recente”: espécie de dobra no discurso, rosto na areia que se desvanece ao contato do mar. Mas que mar? O da História? O da Linguagem? O da Revolução? O da Estrutura? Em qualquer deles naufragamos -para reaparecer, pois tudo é raso, no próximo quadrinhoExtraído de “Patópolis”“Nunca parei de pensar um pouco como criança”“Patópolis” levou cerca de 15 anos para ser terminado; livro será lançado hoje na Livraria da Vila, em São PauloObra é pontuada pelas reminiscências de leituras da infância, quando autor “pensava um pouco como adulto”DO EDITOR DA PUBLIFOLHA“Patópolis”, de Marcelo Coelho, praticamente começa com a descrição de um quadrinho: Pato Donald lê, em sua poltrona, uma obra que se chama “Livro Chato”.O tema desencadeia as reminiscências do autor, bem como um torvelinho de reflexões e ironias sobre a chatice das coisas e o “achatamento” do mundo.A cidade imaginária de Disney vai se sobrepondo às memórias e à realidade, até se transformar -mais real que o real- na referência primordial de todas as coisas. Tudo se miniaturiza, se quadriniza e se “patifica”.Coelho conta que o livro começou a ser feito há cerca de 15 anos. “Escrevi dois capítulos, mas me perdi no labirinto das especulações e não conseguia sair.”Para dar ao leitor um exemplo de “livro chato”, o escritor iniciou um conto que seria inserido no meio de “Patópolis”. O conto, porém, ganhou vida própria e se transformou na novela (também satírica) “Jantando com Melvin”, lançada em 1998.“Patópolis” continuou empacado, até que, no final do ano passado, Coelho se colocou como resolução de ano novo terminar a obra.Para tanto, quase não precisou reler os gibis de Disney. “Eu os li muito até os nove anos. Tudo o que citei são coisas das quais me recordo.Nunca parei de pensar um pouco como criança e, quando era criança, pensava um pouco como adulto”, diz o autor, pai de dois garotos que não ligam para gibis.ANTIGAS LEITURASO livro é pontuado pelas reminiscências de Coelho a respeito das leituras que fez na infância e na juventude.“Desde pequeno eu lia muito. Os livros acabaram sendo uma realidade mais intensamente vivida por mim. A experiência de vida foi substituída por uma experiência de leitura”, explica.São essas leituras que norteiam as lembranças do passado, do qual Coelho faz uma descrição patética e rebaixada. Aproveita, no caminho, para demolir a religião (”nunca vimos um pato na cruz”), sistemas filosóficos e políticos, além de uma série de paixões intelectuais, como Pascal (”nome aliás de pato enfermiço”).Coelho é, porém, cauteloso ao falar de “Patópolis” como um ataque à regressão social e cultural de nossa época. “Não sei se a dificuldade de maturação é um tema do livro, ou se o livro é um sintoma disso. Adorno estaria denunciando a regressão de nossa época, eu estou me debatendo com isso e desfrutando”, confessa.(ALCINO LEITE NETO)PATÓPOLISAUTOR Marcelo CoelhoEDITORA IluminurasQUANTOR$ 35 (136 págs.)LANÇAMENTO hoje, às 18h30, na Livraria da Vila (r. Fradique Coutinho, 915, Pinheiros, tel. 0/xx/11/3814-5811)



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