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sábado, 21 de agosto de 2010

Lawrence na pele de ensaísta

A atualidade do escritor e ensaísta D. H. Lawrence transparece nas citações de escritos seus pelos teóricos da filosofia e do pós-humano. Graças ao sucesso mundial de romances como O Amante de Lady Chatterley, o brasileiro o conheceu de leitura no passado e agora o reconhece nas páginas de Gilles Deleuze, Félix Guattari e Jeff Wallace. O descompasso entre a leitura dos romances e o reencontro casual em livro alheio se explica pelo fato de a obra ensaística de Lawrence ter permanecido praticamente inédita no Brasil. Alguns ensaios dele acabam de ser traduzidos e publicados sob o título de O Livro Luminoso da Vida (Crisálida).A predileção do antologista pelos estudos sobre literatura e arte deve ser complementada com a leitura prévia de Apocalipse (Companhia das Letras, 1990). Como atesta Deleuze em Crítica e Clínica (Editora 34, 1997), o teor da reflexão de Lawrence é nietzschiano. O livro contrasta o Evangelho Segundo São João e o Apocalipse, também de João, desterrado em Patmos, com o fim de questionar a autoria única. Proposta por Lawrence, a distinção entre um João e o outro não se esgota em si. Visa a dramatizar duas regiões diversas da alma humana que fundamentam um e o outro livro bíblico. Como assinala Deleuze, o Evangelho é aristocrático, individual, doce, amoroso e decadente, já o Apocalipse é coletivo, popular, inculto, raivoso e selvagem. A cisão autoral encaminha a preferência de Lawrence. Não se esquecer de que para ele "romances realmente grandes são os livros do Velho Testamento", escritos por autores com intenções tão grandes que não entram em choque com a inspiração apaixonada.Acrescente-se que, para o ficcionista gaulês, "os diálogos de Platão são estranhos pequenos romances". Se o ensaísmo não se desvincula do caminho real da narrativa bíblica, a ficção como no espetáculo O Banquete, de José Celso Martinez Corrêa, não se libera de Sócrates e do colóquio platônico. Afirma Lawrence que, depois de Aristóteles, Tomás de Aquino e o abominável Kant, "o romance ficou aguado e a filosofia, seco-abstrata". Talvez em alusão ao desafeto Bertrand Russel, Lawrence lamenta que "filosofia e religião foram muito longe no caminho algébrico".Em 1923, Lawrence reuniu as exegeses literárias de maior densidade em Estudos Sobre a Literatura Clássica Norte-Americana. Do volume temos, na atual coletânea, dois exemplos notáveis e complementares. O primeiro exemplo é a análise do puritanismo no romance A Letra Escarlate (Ediouro, s/d), de Nathaniel Hawthorne. Para avaliar o modo como a agradável consciência intencional dos americanos convive com o diabólico inconsciente, Lawrence interpreta o episódio da queda no Gênesis. No momento em que Adão e Eva querem SABER (maiúsculas do ensaísta) o que tinha acontecido entre eles, emerge o conhecimento da mente, que aprisiona e recalca instinto e intuição, ou seja, o conhecimento do sangue. No interregno entre o saber do sangue e o da mente, nasce o pecado. Ao nomear a culpa, o saber que se antecipa ao ato sexual glorifica o puritanismo. Ao diferir o sexo por ser ele fonte do pecado, o puritano deixa de problematizar os sentimentos que transitam da cintura para baixo no corpo humano.O segundo exemplo comporta digressões líricas sobre a obra de Walt Whitman, o poeta das Folhas de Relva (Iluminuras, 2008). É ele o primeiro a dar como superada a concepção moral que afiança estar a alma do homem "acima" da carne e ser algo "superior" a ela. Alma e corpo se inter-relacionam e caminham a pé pela estrada. Whitman teria dito a ela: "Fique aí, ó Alma, onde é seu lugar. Fique na carne. Fique nos braços, nos beiços e na barriga. Fique nos escuros membros dos negros. Fique no corpo da prostituta." Se o Velho Mundo do cristianismo tinha instituído a moral da salvação, o americano Whitman introduz nova forma de moralidade, antípoda da ascese pregada por Gustave Flaubert em Tentações de Santo Antão (Iluminuras, 2004). A nova moralidade é "uma doutrina de vida". Renega culpa e pecado na formação da alma humana. Ao contrário de Flaubert, que se identifica ao leproso pela caridade evangélica, Whitman não se propõe como Salvador. Foi "o primeiro aborígine branco", diz Lawrence.



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