Titulo Autor      


  noticias


terça-feira, 9 de novembro de 2010

Miragem e mundo real se cruzam

Curador do Masp, crítico e professor da USP, Teixeira Coelho faz de O Homem Que Vive sua experiência narrativa mais radical, aproximando o nouveau roman francês de uma verve ensaísticaAntonio Gonçalves FilhoA uma certa altura do romance O Homem Que Vive, do curador do Masp, ensaísta, professor da USP e escritor Teixeira Coelho, o casal Buel e Valéria refugia-se no interior da Tate Modern, em Londres, justamente quando o artista dinamarquês Olafur Elliason apresenta na sala da Turbina o gigantesco sol de seu Projeto Tempo, em 2003. É gritante o contraste entre o frio inusitado que atravessa o romance e a quente paisagem bicromática da Tate, a ponto de Valéria tirar o casaco e ficar de camiseta cavada olhando a grande bola amarelada de Elliason. Também um homem de contrastes, Elliason, dois anos depois, faria o contrário num mosteiro da ilha de San Lazzaro, em Veneza, construindo um cubo negro com uma única e minúscula fonte de luz. Em ambos os casos, Elliason deixa no espectador as marcas de uma incômoda sensação de deslocamento, que o livro de Teixeira Coelho provoca desde o prólogo.Nele, um especialista em arte, globetrotter que vive em museus, chega a São Paulo no inverno de sua desesperança. Detalhe: neva sobre a metrópole. No táxi que emerge na Avenida Paulista coberta de neve está Buel, que vaga pelo mundo atrás de uma mulher - seu anjo, como diz. Como o Ulisses de Homero ou seu correspondente joyciano, Buel vive num espaço metafórico, idealizado. As representações alegóricas da neve de Teixeira Coelho e do sol de Olafur Elliason na Tate não estão, no entanto, fora de lugar. Elas são a chave para entender que a impaciência do protagonista e também narrador é fruto de sua obsessão visual. Ele quer ver alguma coisa e depois esquecê-la, como anotou Harold Bloom, citado pelo autor no capítulo em que fala de anjos caídos na Tate. Bloom, que também estudou os anjos, disse, em outras palavras, ser impossível alguém ver a si mesmo ou aos outros com esse tipo de impaciência tipicamente moderna.Mais adiante, no epílogo, Teixeira cita o escritor suíço de língua alemã Robert Walser (1878-1956), observando que a alma de alguém pode, afinal, residir em algum outro lugar, longe da morada de seu corpo. Buel e Valéria talvez sejam projeções recíprocas que justificam a epígrafe retirada de um poema do livro Atemwende (1967), de Paul Celan - "Você é minha realidade; eu, sua miragem." Isso explica, em parte, a natureza angelical da mulher idealizada por Buel, quase uma projeção dos anjos de Swedenborg, capazes de, como observou Borges, prescindir das palavras para se comunicar - daí as citações visuais no livro, que vão do mencionado Elliasson a Kiefer, passando por Sigmar Polke, Enzo Cucchi e James Whistler, aquele que falou que a arte simplesmente "acontece". Como uma epifania.Teixeira Coelho concorda com o axioma de Whistler. Para ele, curador do principal acervo de pinturas da América Latina, a arte é mesmo uma epifania. Sem ser jansenista, Coelho diria que ela é "uma graça que cai onde quer". O resto é esperança. Filho assumido do nouveau roman francês e formado pela nouvelle vague - especialmente Godard -, o escritor, autor de incontornáveis ensaios sobre política cultural, busca uma nova forma de contar uma velha história. E por que, então, escolheu a ficção? "É o jeito de tocar na sensibilidade reprimida", responde ele, concluindo que o relato ficcional chega mais rápido ao leitor, "quase como uma revelação, uma epifania joyciana".Como o símbolo que Whistler usava para identificar suas pinturas - uma borboleta estilizada com um ferrão na cauda -, Teixeira Coelho combina dois aspectos de sua personalidade pública: a discrição e delicadeza como curador e o lado combativo como defensor de políticas culturais democráticas. Esse compromisso ideológico se traduz em livros como História Natural da Ditadura, a rememoração dos regimes autoritários do século 20 por um narrador que associa o estado de exceção a um estado de suspensão da existência - e não é sem razão que o argelino Albert Camus é evocado por um narrador com "vergonha de narrar" a história. Se a felicidade parece estar sempre no passado, como observa o autor no começo do livro, as imagens podem consolar, mas não as palavras. "A palavra escrita é um ferro que marca a alma", diz, concluindo que a memória, como no clássico O Ano Passado em Marienbad de Resnais, condena. Pessimismo? "Há, de fato, no livro, um certo apagamento da vida presente, como se só vivêssemos retrospectivamente, uma coisa que ataca a quem vê muito", observa. Ele, inclusive, habituado - como um especialista em artes visuais - a ver a vida por meio de outros olhos.



EDITORA ILUMINURAS - LTDA
Rua Inácio Pereira da Rocha, 389 Cep: 05432-011 - São Paulo - SP Tel/Fax: (11) 3031-6161