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segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Tentando reencontrar o anjo

O homem que vive - uma jornada sentimental (Iluminuras, 256 páginas, www.iluminuras.com.br) é o romance mais recente de Teixeira Coelho, autor de História Natural da Ditadura, premiado com o Portugal Telecom. A narrativa tem formato de livro de viagem clássico e atual em tempos de globalização, nos quais as pessoas ficam umas com as outras, como diz o eufemismo para o sexo, mas acabam ficando em lugar algum, muitas vezes sozinhas mesmo. Elas estão por toda a parte e em lugar algum, tipo assim, utopias de si mesmas, andando nos aviões por aí. A narrativa se inicia com o protagonista retornando a São Paulo, depois de oito anos de ausência, para tentar reencontrar seu anjo, seu mais próximo e dedicado anjo que encontrara e rejeitara. O narrador anuncia, ou melhor, adverte, que é uma história sobre a felicidade, que está em jogo a “tola felicidade”, a “insensata busca da felicidade”. Diferentemente dos outros livros do autor, neste as palavras e frases passam rápidas e breves e os saltos na narrativa são mais frequentes. O tema é a relação entre o homem e a mulher num mundo que desaparece e se altera de modo inquietante, mas com tudo parecendo absolutamente normal. O passado, o ano de 1973, é o pano de fundo. Sim, 1973, o ano do golpe no Chile e de tanta coisa mais. As histórias se passam em São Paulo, Paris, Washington, Londres, Fontainebleau, Vietnã, Roma, La Pampa, Berlim, Munique, Leipzig, Genebra e Istambul. Apesar da inédita neve em São Paulo, não pense o leitor que está diante de uma narrativa dessas de realismo mágico ou de outro clichê qualquer. A chave é outra. O personagem talvez seja uma miragem da cidade e a cidade, qualquer delas, é sua realidade. Em síntese, o romance é um jogo de espelhos fragmentados e complexos e a felicidade anda por aí, a nosso alcance, mesmo que a imagem da cidade sob a neve incomode. É isso mesmo. Jorge Luis Borges escreveu há tempos que o romance atual não pode ser mais uma história de sucessos, vitórias e afirmações, matérias estas hoje próprias para livros de autoajuda e biografias. O buraco hoje é mais embaixo. Heróis problemáticos, fracassos, becos sem saída, interrogações infinitas, viagens intermináveis. Pós-moderno? Sei lá. Vá lá saber o que é esse tal pós-moderno. E será que é preciso saber?



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