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sábado, 27 de novembro de 2010

Áspera beleza na língua do abismo

J. C. Ismael - O Estado de S.Paulo

Amam-me, multiplicam-me.

Só assim sou eterno.

Herberto Helder

Aprimeira referência que tive de Herberto Helder ocorreu durante a entrevista com o escritor português José Cardoso Pires (1925-1998) em Lisboa, em novembro de 1987, publicada no Caderno 2.

Pires recomendou-me que o lesse, pois ele se firmara como expressão literária superlativa da poesia do seu país desde Fernando Pessoa. Um exagero, pensei, logo desmentido com a leitura dos poemas de O Amor em Visita, também título do seu pequeno livro de estreia, de 1958, incluído três anos depois na coletânea A Colher na Boca.

Reunião de nove poemas, O Amor... antecipa como usaria o recurso do verso livre sem sacrificar o ritmo - ao contrário, enriquecendo-o ao "segurar" o texto num torvelinho de imagens oníricas de áspera beleza. Em seguida saem Poemacto (1961), Retrato em Movimento (1967), O Bebedor Nocturno (1968) e Vocação Animal (1971), nos quais consolida o verso livre e o experimentalismo (a maioria dos seus poemas, caudalosos, não tem sinais de pontuação), fazendo da própria linguagem "personagem", e rompendo de vez com o que restava da tradição "bem-comportada" da poesia portuguesa. Herberto Helder (Herberto Helder Luís Bernardes de Oliveira), nascido no Funchal, na Ilha da Madeira, completou 80 anos dia 23 incontroversamente consagrado como o mais original poeta vivo português.

Morando, na juventude, em Coimbra, e sempre irrequieto, depois de abandonar o curso de direito, faz o mesmo com o de literatura. Sua biografia de "l"uomo qualunque" inclui ofícios como o de serralheiro, cozinheiro, propagandista e meteorologista, entre outros. A vida nômade leva-o a viajar sem rumo por diversos países. De volta a Lisboa em 1960, trabalha como redator da editoria internacional da Emissora Nacional e como tradutor e bibliotecário. Nos anos 1970, viaja pela Europa, já com o mesmo prestígio do "trio sagrado" formado por António Ramos Rosa, Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) e Mário Cesariny (1923-2006), aos quais mais tarde se somaria Al Berto (1968-1997).

Depois de seis anos sem nada produzir, e de volta a Lisboa, em 1978, é a vez de O Corpo o Luxo a Obra, título emprestado para a seleção de trechos de poemas anteriores (publicado pela Iluminuras no ano passado) somando-se às muitas antologias existentes. Para o iniciado em Helder, é o livro perfeito: abre amplo espectro para a magia dos poemas desse diligente pastor das palavras, com suas recorrentes metonímias, voltadas à construção de linguagem única, em que a surpresa da sua construção não é gratuita, mas a chave daquela transcendência poética intocada pelo romantismo formal de que fala T.E. Hulme. Sua poesia completa tem sido regularmente reeditada, desde Poesia Toda, nas portuguesas Plátano e Assírio & Alvim; é desta última a do ano passado, com o título de Ofício Cantante.



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