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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A festa linguístico-poética do "Catatau" de Leminski

Singulares excessosA festa linguístico-poética do "Catatau" de LeminskiRESUMOÍcone da literatura experimental no Brasil, o romance "Catatau", de Paulo Leminski, ganha nova edição e adaptação para o cinema, dirigida por Cao Guimarães. Críticos festejam o lançamento do filme e reiteram a singularidade do livro, tanto do ponto de vista de linguagem como da representação literária do Brasil.JOSÉ GERALDO COUTOTINHA UM "CATATAU" no meio do caminho. Tinha, não; tem. Trinta e cinco anos depois de sua erupção, o "romance-ideia" de Paulo Leminski (1944-89) ainda é um corpo estranho a ser devidamente decifrado e assimilado ao organismo da literatura brasileira.Alheio ao fato de ter morrido há mais de duas décadas, Leminski segue "falando pelos calcanhares", para usar uma expressão bem sua, presente no "Catatau". O livro acaba de ganhar, ao mesmo tempo, sua quarta edição [Iluminuras, 256 págs., R$ 44] e uma elogiada "transcriação" cinematográfica, o filme "Ex Isto", de Cao Guimarães.Parece que a vocação desse "Catatau" é a de se expandir lentamente em círculos concêntricos, feito as marolas formadas por uma pedra atirada no lago. Mas nada indica que esteja próximo o dia em que as massas haverão de comer esse biscoito fino.Para o crítico e professor de ?teoria literária na Unicamp Alcir Pécora, a "exuberância vertiginosa" do livro "não o torna fácil de ler". Apesar da crescente fortuna crítica que vem se constituindo em torno da obra, ela ainda é solitária, segundo Pécora. "Eu diria: é ainda mais solitária do que foi à sua época, como gesto decidido em direção ao risco, à experimentação formal, linguística, ao humor da língua, ao problema do sentido e da radicalidade da experiência artística."DESCARTES Tudo começou com o estalo de um professor de cursinho, durante uma aula sobre a ocupação de Pernambuco pelos holandeses, no século 17: e se o filósofo René Descartes (1596-1650) tivesse vindo ao Brasil com Maurício de Nassau?A ideia poderia ter parado por aí, como uma divertida e ociosa especulação, se o tal professor não fosse Paulo Leminski, poeta "de uma imaginação de linguagem e uma cultura literária fenomenais", no dizer de José Miguel Wisnik, professor de literatura na USP, músico e ensaísta.A primeira versão veio sob a forma de conto, que disputou em 1968 um concurso literário no Paraná e só não venceu por uma trapalhada confessa do júri. Nos sete anos seguintes, Leminski desenvolveu sua fecunda ideia até transformá-la no inclassificável fluxo verbal de "Catatau".No livro, o entrecho é reduzido ao mínimo: no horto tropical do palácio de Nassau em Olinda, estupefato diante dos estranhos espécimes da fauna e da flora brasileiras, Descartes vê sua lógica oscilar e ruir, seus conceitos derreterem sob o calor, enquanto espera por Krzysztof Arciszewski, militar polonês a serviço da Companhia das Índias Ocidentais, que lhe deverá "explicar o Brasil".PERPLEXIDADE Narrado em primeira pessoa pelo próprio René Descartes, o texto testemunha sua perplexidade , ou, nas palavras do próprio Leminski, "o fracasso da lógica cartesiana branca no calor"."Este mundo é o lugar do desvario, a justa razão aqui delira", queixa-se o filósofo. E um pouco adiante: "Duvido se existo, quem sou eu se este tamanduá existe?". Antes disso, logo na terceira página, ele confessara: "Bestas geradas no mais aceso do fogo do dia... Comer esses animais há de perturbar singularmente as coisas do pensar. Palmilho os dias entre essas bestas estranhas, meus sonhos se populam de estranha fauna e flora: o estalo de coisas, o estalido dos bichos, o estar interessante: a flora fagulha e a fauna floresce... Singulares excessos...".À crise do pensamento corresponde uma crise da linguagem, e as reflexões filosóficas se alternam no texto com citações eruditas, torções de ditados populares e frases feitas e trechos de pura música (ou cacofonia) verbal: aliterações, onomatopeias, trocadilhos, neologismos, aglutinações, mistura de línguas. Esses momentos de "enlouquecimento" do texto em geral são motivados pela entrada em cena do estranho Occam, que o próprio Leminski definia como "o primeiro personagem puramente semiótico, abstrato, da ficção brasileira".Algumas expressões utilizadas pelos primeiros comentadores dão uma noção da natureza da obra e de seu impacto: "selva de palavras" (Leo Gilson Ribeiro), "rede de signos" (Antonio Risério), "porre verbal" (Ivan da Costa), "leminskíada barrocodélica" (Haroldo de Campos), "floresta sígnica" (Carlos Verçosa).



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