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sábado, 8 de janeiro de 2011

Pelos caminhos de James Joyce

DIRCE WALTRICK DO AMARANTE - O Estado de S.PauloRichard Ellmann, biógrafo do escritor irlandês James Joyce (1882 -1941), um dos gigantes do século 20, afirma, ao falar de sua obra, que "seus heróis não são fáceis de se gostar, seus livros não são fáceis de ler. Ele não deseja conquistar-nos, mas que nós o conquistemos. Em outras palavras, não há convites, mas a porta está entreaberta". Passados quase 70 anos da morte de James Joyce, ocorrida em 13 de janeiro de 1941, em Zurique, Suíça, a sua obra é um desafio para os leitores, muitos dos quais, devemos supor, desistem de lê-la logo nas páginas iniciais de Ulisses (1922) e Finnegans Wake (1939). Para usar uma expressão de Walter Benjamin, poderia afirmar que a obra de Joyce continua sendo o "alimento cru da experiência", indigesto, porém, pleno de "substâncias nutritivas".Joyce tinha plena consciência da novidade que impunha à literatura e aos leitores. Numa ocasião, Nora Joyce, mulher do escritor, lhe perguntou: "Por que você não escreve livros sensatos que as pessoas possam entender?" Não se sabe sua resposta, mas sabe-se que Joyce esperava que o leitor "devotasse sua vida inteira a ler meus livros". Noutra ocasião, perguntaram-lhe por que escrevera Finnegans Wake, seu último romance, "dessa maneira", isto é, "ilegível". Com a ironia que lhe era peculiar, respondeu (profeticamente, diria): "Para manter os críticos ocupados por 300 anos." Sobre esse livro, que acrescenta ao inglês um vocabulário oriundo de mais de 65 idiomas, Samuel Beckett costumava dizer que ninguém devia se queixar de que não estivesse escrito em inglês, pois, para ele, o Wake "nem sequer estava escrito. Nem sequer é para ser lido. É para olhar e escutar." Toda a obra de Joyce tem, de fato, uma cadência e um ritmo especiais, ou seja, as palavras parecem ter sido escolhidas principalmente por sua sonoridade. Bernardina Pinheiro, tradutora de Ulisses e de Um Retrato do Artista Quando Jovem, lembra que, neste último, o som é tão importante que "é possível acompanhar a evolução psíquica de seu personagem Stephen Dedalus através dos efeitos que o autor lhe empresta".Joyce é verdadeiramente "verbivocovisual", como ele mesmo diria, exigindo todos os sentidos de seu leitor. Num ensaio em que Wake é definido como um "laboratório que submete a leitura à sua prova mais extrema", Ricardo Piglia diz que Joyce delega ao leitor a "função ordenadora do narrador". O escritor não havia numerado as páginas de Finnegans Wake (numerá-las foi decisão editorial), queria que o leitor tivesse a liberdade de "ordenar" sua leitura como bem entendesse. O leitor de Joyce não pode ser passivo, tem de decidir-se aonde ir, não sem antes, claro, se emaranhar nos múltiplos fios soltos que compõem a linguagem do escritor, ou se perder no seu labirinto narrativo.O autor de Ulisses, recorda Piglia, "não faz o que qualquer narrador faria (...), nunca explica, antes expande e dissolve as relações, desagrega o sentido". Sua narrativa é composta de múltiplas alusões e referências, nem sempre claras: em Ulisses, a Odisseia de Homero é o modelo estrutural, costurando o enredo no qual nenhum personagem chamado Ulisses aparece; já em Finnegans Wake, a inspiração estrutural e temática provém de uma balada popular intitulada Finnegan"s Wake. Mas, para quem lê seus livros, tanto a Odisseia quanto a balada aparecem muito mais como armadilhas alegóricas de interpretação, como diria Piglia, do que modelos concretos de composição.Joyce buscava "um leitor perfeito", que soubesse mais que o narrador e fosse capaz de decifrar todos os sentidos de seus livros. Paradoxalmente, quando questionado se haveria níveis de significado a serem explorados em seus livros, ele teria respondido: "Não, não, é feito para fazer você rir. (...). Eu sou apenas um palhaço irlandês, um grande piadista do Universo." Contudo, nem sempre vemos Joyce, escritor radical, também como autor humorado, irônico, às vezes cômico. Nenhum leitor, ao ler Ulisses, aceitará com seriedade personagens com os seguinte nomes: "..., o Senhor Cavilagem, o Senhor Porvezes Adeusado, o Senhor Mono Chupacerveja, o Senhor Homofranco, o Senhor Delício Dixon, o Moço Ferrabraseiro e o Senhor Cauto Amansador" (na tradução de Antônio Houaiss).No Brasil, percorremos talvez muito pouco dos 300 anos de que falava o escritor, mas, nesse pequeno percurso, fomos bem guiados, inicialmente, pela tradução pioneira de Ulisses, assinada por Antônio Houaiss, em 1965, romance que, em 2005, recebeu finalmente tradução feminina, de Bernardina Pinheiro. Não por acaso, nessa tradução feminina, "o gorducho Buck Mulligan" apareça já na primeira página do livro com "penhoar amarelo, desamarrado, flutuando suavemente atrás dele no ar fresco da manhã", bem diferente do "seu roupão amarelo, desatado, se enfunava por trás à doce brisa da manhã", que nos dava a outra tradução.No início dos anos 1960, apareceram as traduções de fragmentos de Finnegans Wake, assinados por Augusto e Haroldo de Campos, acompanhados de ensaios sobre a obra de Joyce. Em 2003, Donaldo Schüler concluiu o que parecia impossível, a tradução integral de Wake. Não se pode esquecer ainda a publicação de uma antologia de ensaios que Arthur Nestrovski organizou no início dos anos 1990. No português do Brasil temos acesso não apenas ao Joyce romancista, mas também ao contista (Dublinenses), ao dramaturgo (Exilados) e ao poeta (Música de Câmara).Existe ainda uma terceira tradução completa de Ulisses, inédita em livro, de autoria de Caetano Galindo e defendida na USP como tese de doutorado. Assim, aos leitores brasileiros não estão acessíveis hoje apenas os textos críticos de Joyce, escritos pelo autor desde a juventude. Nesses textos, que deverão ser finalmente publicados pela editora Iluminuras, sob o título De Santos e Sábios, poderemos conhecer um lado de Joyce ainda pouco divulgado no Brasil, o Joyce político, tomando posições sobre a situação de sua Irlanda Colonial.



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