Titulo Autor      


  noticias


terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

JOYCE E O LEITOR BRASILEIRO

Por: Dirce Waltrick do Amarante*

Richard Ellmann, biógrafo do escritor irlandês James Joyce (1882 - 1941), um dos gigantes do século XX, afirma, ao falar de sua obra, que “seus heróis não são fáceis de se gostar, seus livros não são fáceis de ler. Ele não deseja conquistar-nos, mas que nós o conquistemos. Em outras palavras, não há convites, mas a porta está entreaberta.” Passados quase 70 anos da morte de James Joyce, ocorrida em 13 de janeiro de 1941, em Zurique, Suíça, a sua obra é um desafio para os leitores, muitos dos quais, devemos supor, desistem de lê-la logo nas páginas iniciais de Ulisses (1922) e Finnegans wake (1939). Para usar uma expressão de Walter Benjamin, poderia afirmar que a obra de Joyce continua sendo o “alimento cru da experiência”, indigesto, porém, pleno de “substâncias nutritivas”.

Joyce tinha plena consciência da novidade que impunha à literatura e aos leitores. Numa ocasião, Nora Joyce, mulher do escritor, lhe perguntou: “Por que você não escreve livros sensatos que as pessoas possam entender?” Não se sabe sua resposta, mas sabe-se que Joyce esperava que o leitor “devotasse sua vida inteira a ler meus livros”.  Noutra ocasião, perguntaram-lhe por que escrevera Finnegans wake, seu último romance, “dessa maneira”, isto é, “ilegível”. Com a ironia que lhe era peculiar, respondeu (profeticamente, diria): “Para manter os críticos ocupados por trezentos anos.” Sobre esse livro, que acrescenta ao inglês um vocabulário oriundo de mais de 65 idiomas, Samuel Beckett costumava dizer que ninguém devia se queixar de que não estivesse escrito em inglês, pois, para ele, o Wake “nem sequer estava escrito. Nem sequer é para ser lido. É para olhar e escutar.” Toda a obra de Joyce tem, de fato, uma cadência e um ritmo especiais, ou seja, as palavras parecem ter sido escolhidas principalmente por sua sonoridade. Bernardina Pinheiro, tradutora de Ulisses e de Um retrato do artista quando jovem, lembra que, neste último, o som é tão importante que “é possível acompanhar a evolução psíquica de seu personagem Stephen Dedalus através dos efeitos que o autor lhe empresta”.

Joyce é verdadeiramente “verbivocovisual”, como ele mesmo diria, exigindo todos os sentidos de seu leitor. Num ensaio em que Wake é definido como um “laboratório que submete a leitura a sua prova mais extrema”, Ricardo Piglia diz que Joyce delega ao seu leitor a “função ordenadora do narrador”. O escritor não havia numerado as páginas de Finnegans wake (numerá-las foi uma decisão editorial), queria que o leitor tivesse a liberdade de “ordenar” sua leitura como bem entendesse. O leitor de Joyce não pode ser passivo, tem que decidir por si próprio para onde ir, não sem antes, é claro, se emaranhar nos múltiplos fios soltos que compõem a linguagem do escritor, ou se perder no seu labirinto narrativo.



EDITORA ILUMINURAS - LTDA
Rua Inácio Pereira da Rocha, 389 Cep: 05432-011 - São Paulo - SP Tel/Fax: (11) 3031-6161