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segunda-feira, 14 de março de 2011

Um controverso libelo da crítica

Lançado em 1989, O Sequestro do Barroco na Formação da Literatura Brasileira, de Haroldo de Campos, ganha nova edição; estudo analisa o lugar da poesia de Gregório de Matos e Guerra

Alcides Villaça - O Estado de S.Paulo
O "tédio à controvérsia", forma de evasão tantas vezes simulada pelo ácido narrador machadiano, não é um bom lema para a crítica, embora seja uma tentação convocá-lo quando o debate cultural se restringe a demarcar territórios pessoais. O aguerrido ensaio de Haroldo de Campos, cujo título é especificação de tese (O Sequestro do Barroco na Formação da Literatura Brasileira: O Caso Gregório de Matos, 1989, agora em nova edição), aciona uma profusão de suportes eruditos e se investe de um propósito cultural que ultrapassam em muito o capricho da demarcação de terreno, sem de todo renunciar a esta. O tom é assumidamente o de um processo acusatório, em que o delito (sequestro) e a vítima representada (Gregório de Matos) são trazidos ao julgamento do responsável, o crítico Antonio Candido, autor da Formação da Literatura Brasileira - Momentos Decisivos, 1959). A rigor, o que Haroldo de fato argui é a consistência do método exposto nas sucintas páginas do capítulo Introdução, do que decorreria a exclusão dolosa; é de se presumir que as análises verticais de obras e autores brasileiros dos séculos 18 e 19, que ocupam os dois volumes e constituem o propósito maior de seu autor, padeceriam da inconsistência daquele pecado original.

O que logo chama atenção do leitor é a diferença de estilo dos dois críticos: a linguagem de Antonio Candido flui como numa linha clara, contínua e persistente, na tradição da esquerda para a direita, em argumentação sucessiva; a de Haroldo de Campos produz uma multiplicação de pontos conceituais que vão e voltam no discurso, qual um arrazoado em espiral. Não resisto à especulação de que esses estilos refletem os modos pelos quais os autores compreendem o tempo da história e da cultura: na perspectiva de Candido, a formação da continuidade literária se dá por meio de um vínculo orgânico entre autor, obra e público, elementos ativos de um sistema ao mesmo tempo social e estético; na perspectiva de Haroldo, sobretudo as obras se comunicam numa temporalidade aberta, constelando-se como fatos de linguagem em que o teor de invenção transcende o quadro temporal. Em duas palavras: a perspectiva diacrônica é rechaçada pela sincrônica.

Dessa matriz de divergências decorrem, mais particularizados, os óbices que Haroldo vê no método de Candido: o primado do "finalismo" num sistema cuja linearidade faria supor um "enredo metafísico", um "habitáculo do Logos", uma "teleologia naturalista" e outros atributos em razão dos quais a acusação recai sobre o que considera uma "generalização do modelo romântico e sua absolutização em modelo da literatura". Como ao Romantismo não falta nacionalismo, a concepção de sistema de Candido acaba sendo também identificada como um tributo à emancipação nacional em processo naquele período, concepção de que teria resultado o sequestro do Barroco e, com este, o de Gregório de Matos. Também para esse ponto cabe ao leitor da Formação verificar se o estudo das obras e autores dos séculos 18 e 19 se ressente, e em qual escala, desse viés nacionalista (ou, como prefere Haroldo, do determinismo dessa "entificação nacional").



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