Titulo Autor      


  noticias


segunda-feira, 13 de outubro de 2008

A gente nunca sabe

Há um abecedário de nomes do diabo por dentro do ´Grande Sertão: Veredas´, de Guimarães Rosa. Isto já é mais que sabido, conhecido, repisado. Sempre que alguém precisa ou deseja orar um pouco ao Sem Nome, cata um nome qualquer lá, inclusive estes que negam uma idéia de nome - o Sem, o Não, o Não sei que diga -, mas que são usados para invocar o Torto, o Esquerdo, o Cujo, o Ó. Os tementes dizem por aí, normalmente, que o diabo é uma contramão do mundo, uma experiência às avessas, uma transgressão, uma quebra, um rompimento frouxo. Mas quase sempre dizem também que é prudente acender uma vela ao diabo quando se acende uma vela a deus, uma compensação, talvez. Por dentro da esfera da linguagem, imagino, tudo é pacto com o diabo; a única clareza no uso e nos modos de uso da linguagem é o mais simples: a gente nunca sabe. Expressão que, se pensamos bem, poderia caber como plaina para mais um nome do diabo: ´a gente nunca sabe´.Nuno Ramos, artista visual nascido em São Paulo, em 1960 - e um dos caras que acho tem um trabalho interessantíssimo hoje nesta travessia que desaparece palavra, escultura, imagem, fala, ficção, documento, crítica, pensamento, testemunho etc, ou seja, um trabalho que avança sobre algumas figurações da linguagem muito próximas de um pacto com o que a gente nunca sabe - acaba de lançar mais um livro que escava essa expressão: o livro se intitula ´Ó´ (editora Iluminuras). Antes, Nuno já havia lançado um primeiro livro de título ´Cujo´ (1993), um segundo chamado ´O Pão do Corvo´ (2001), depois uma fala sem fim no seu ´Ensaio Geral´ (2007). Neste último, dizendo sobre um trabalho de título Minuano, que foi montado entre as fronteiras de Brasil, Uruguai e Argentina, um conjunto de cinco blocos de mármore branco que pesavam entre 15 e 30 toneladas cada um com espelhos fixados em uma das faces, arma uma espécie de compilação íntima alucinada, um diário torto: ´A mão pára em qualquer posição. Os dedos abertos, aparentemente fora de repouso, repousam. Isso corresponde a algo já defunto dentro de nós - minério modelando nossa carne. Estranho que isso se mostre na mão (o pé parece indiferente, imóvel) - aquela extremidade em que, ao que tudo indica, evoluímos mais do que os outros primatas.´



EDITORA ILUMINURAS - LTDA
Rua Inácio Pereira da Rocha, 389 Cep: 05432-011 - São Paulo - SP Tel/Fax: (11) 3031-6161