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quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Inspirado pelo pulsar do desejo

"Quando você vier da próxima vez deixe o mau humor em casa - também o espartilho", alerta o escritor James Joyce no fim de uma de suas cartas enviadas a Nora Barnacle, que seria sua futura esposa. Juntos a partir de 1904, os dois, - e talvez até mais o escritor irlandês -, encontraram ali, no espaço íntimo das missivas, uma forma de manter incandescente o desejo e, sobretudo, o laço que uniu ambos por longos anos. Parece ter sido na ponta daquelas penas que Joyce deu vazão a sua veia mais pornográfica e, como ele mesmo disse, se nem entre amigos ele fora capaz de soltar um palavrão, em seus escritos a Nora, o vocabulário não evitava o chulo, mas o perseguia sem pudores."Como você vai responder essas cartas? Espero e espero que você também me escreva cartas ainda mais loucas e sujas do que as minhas", instiga Joyce. Quando Nora não correspondia, ou se mantinha por algum tempo silenciosa, a "frieza" virava motivo de preocupação. "Nenhuma carta! Agora tenho certeza de que a minha menina se ofendeu com as minhas palavras asquerosas", declara ele em outro momento. Para além dos intensos bastidores dessa relação amorosa, que por si só atrai grande curiosidade, no livro "Cartas a Nora", organizado e traduzido por Dirce Waltrick do Amarante e Sérgio Medeiros, os textos apresentam ao leitor outras facetas do autor de "Ulysses" e também de sua eterna musa.Contudo, não estão ali presentes o rigor e o experimentalismo formal que o consagrou como um dos mais importantes autores modernistas de língua inglesa."Tenho a impressão de que Joyce escreveu as cartas para Nora em momentos desesperados e de grande agitação emocional. Joyce não estava preocupado, parece-me, com inovações linguísticas e estéticas quando as escrevia. Suas cartas são um jorro de emoções que revelam muito mais sua turbulência espiritual enquanto amante, irlandês e escritor. Mas não deixam de ser uma espécie de epifania, às vezes reaproveitadas em sua obra ficcional", observa a tradutora Dirce Waltrick do Amarante.Já Sérgio Medeiros acrescenta que apesar dessas cartas terem sido criadas "de um jato", elas antecipam alguns temas que Joyce, posteriormente, "trabalharia literariamente na sua obra, uma obra não poucas vezes acusada de obscena". "Essas cartas, acredito, prepararam Joyce para escrever depois ‘Ulysses’, sua obra-prima, na qual esse tipo de linguagem aparece nas passagens mais ardentes do romance", frisa Medeiros.



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