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segunda-feira, 4 de março de 2013

Uma grande surpresa

Odo Marquard é um filósofo contemporâneo que os trópicos desconhecem. Em um texto datado de 1989, "A arte como antificção", ele teve uma ousadia só comparável às que, em vida, tornaram Nietzsche um marginal: propor que vivemos em um mundo que chegou a tal grau de artifício e fantasia que se impõe a tese por ele assim enunciada: "Onde a própria realidade se transforma em um conjunto de fictícios, a arte, de sua parte, converte-se em antificção".A formulação era uma provocação. Ela chega a tal grau que, embora eu a tenha traduzido, só a fiz circular entre uns poucos amigos. Dela, contudo, agora me lembro pela surpresa que causa o livro de estreia de Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira, "As Visitas Que Hoje Estamos" (Iluminuras, 2012).Mas que razão justifica a lembrança? Ela está em que seu modo de composição mostra uma ficção que parece evitar ser reconhecida como ficção. É certo que o leitor mais atilado se dirá: ora, vejam só, com nossa tradição "documentalista", incentivada pela moda internacional dos "testemunhos" de situações incomuns, aquela e esses rapidamente convertidos em minisséries televisivas, de que surpresa se estará falando?Permitam-me responder: o não fictício de "As Visitas" não tem nada a ver com nossa tradição naturalista de romances documentais e de testemunhos. Tem sim a ver com a ausência de dois ingredientes comuns na obra romanesca: o enredo e a unidade de dicção. O enredo é tradicionalmente o meio pelo qual o escritor coordena as ações, impede que elas se descaminhem ou se tornem semelhantes a um curso d'água que, na ausência de um leito, extravasa pelas margens.Ora, nesse sentido, "As Visitas" não tem enredo. Se o livro então não cai nos defeitos apontados é porque seus personagens são os anônimos de toda uma comunidade. Qual comunidade? Aquela que é coberta pela quebra da unidade de dicção. Ou seja, a ausência de um ingrediente usual se acompanha da ausência do outro. Com efeito, a unidade de dicção, com frequência entendida como "estilo", é substituída por uma dualidade de dicções: a dominante é a de cunho rural-interiorano, a dominada é a dicção culta, que remete à fala do próprio autor.



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