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terça-feira, 5 de março de 2013

O destino das metáforas

-Prêmio Jabuti, o livro de Sidney Rocha é um novo fôlego para literatura brasileira contemporâneaA voz em primeira pessoa, a sutileza, o transcorrer do tempo, a morte na metáfora da máquina do tempo. Daniel, o amigo, o que ficou para trás e espera a máquina é a história da transcendência que não se realiza. Nesse conto que empresta título ao livro, assim como nos outros - e para mim uma das confirmações de sua unidade - o plano de narração reflete outros planos em que a súmula dos efeitos da escritura de Sidney Rocha - todos em pró do não dito - faz a diferença entre o limite do real e sua fabulação.O destino das metáforas é transcender a realidade que se divisa na história do garoto cego que tropeça no gato de três patas (gato para quem recairá a fúria) e tomba da escadaria para a morte ou no pai que mata os filhos arremessando-os da ponte como se pequenas aves fossem e precisassem do incentivo paterno para voar. Também no bebê de passos trôpegos que morde e arranca o mamilo (a lua) da mãe numa correspondência genial com os passos trôpegos de Armstrong vistos na TV. Esses são resumos malfeitos de alguns dos contos do livro. Nele a realidade chã é transmutada para outra dimensão, a dimensão poética que refaz o teatro em que se desenrola o drama humano.Em todos os contos nota-se uma rigorosa medida, coisa de matemático, que milimetricamente conduz o leitor em cada frase. Tudo parece ser calculado, e do traçado disso surge diante do leitor satisfeito uma prosa rigorosa e vigorosa; parábolas de tensão e linguagem sem estratégia nenhuma de efeitos vazios (tão comum nesses tempos pós-modernos, quando se tornou tão difícil ser escritor, e resta o desespero e uma busca quase vã pela originalidade) Sidney Rocha, em O destino das metáforas, não se confunde com esse tipo de prestidigitador canhestro.Os contos apresentam camadas, talvez outro nome para a história secreta de Piglia, daí, talvez, a sensação de que você leu uma narrativa que deixa na lembrança a certeza de que não foi apenas aquele número de página, indicada no sumário, não aquele número - os contos são curtos, alguns curtíssimos - a responsável em conter todo o jorro da narrativa. A realidade explicitada não basta, existe alguma coisa a mais que se esconde, se insinua, algo que você leitor quase nunca sabe o que é, mas, desconfiado, alimenta suspeitas. Uma suspeita de que há algo a mais (que o noticiário deu conta superficialmente) e que não foi dito a respeito do sujeito encontrado morto numa lata de lixo.Há muito o que dizer do conjunto dos contos. Em Castilho Hernandez, por exemplo, um dos meus favoritos, a perda da identidade e certa esquizofrenia da personagem da o tom e Sidney se sai muito bem na sua contribuição para a galeria de contos (em que se destacam Poe e Borges) que exploram a temática do Outro. A escritura poliédrica permitiu-lhe explorar num mesmo conto, como A Vida e A Morte de John Lennon, vários temas como o fim da infância (numa bonita metáfora que nos lembra Baudelaire, “o fim da infância, a cidade deixada pra trás...”), a reinvenção de Sísifo na necessidade de andar em círculo, a felicidade e a morte vistas ao mesmo tempo num beijo, o erotismo e a perda do vigor, o inacessível objeto de desejo, a senilidade e a morte. Tudo isso num só conto, milimetricamente construído e de uma unidade a toda prova.



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