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segunda-feira, 25 de março de 2013

O aqui e agora da prosa de Antonio Geraldo

Qual o lugar da prosa de ficção no século 21? Para responder a esta pergunta é necessária, obrigatoriamente, uma, ainda que micro, observação diacrônica acerca de seu lugar no século anterior, quando Marcel Proust e James Joyce, os dois maiores prosadores da era moderna, elaboraram suas obras. As conquistas semânticas, formais e estruturais forjadas pela Recherche, bem como pelo Ulisses e pelo Finnegans Wake, são divisores de águas tais na história da prosa, que não é possível circundá-las, ou evitá-las, sob pena de se cair na vala comum dos diluidores, os quais não fazem senão criar sub-romances-contadores-de-estórias que retroagem ao psicologismo e ao socialismo de certa ficção dos oitocentos, ignorando a reflexibilidade sensorial da catedral proustiana, bem como o fluxo de consciência e a pletora de neologismos joycianos.Isto implica em dizer que toda a prosa deve sempre rezar pela cartilha de Proust ou de Joyce? Claro que não. Pelo contrário. É imperativo que toda criação ficcional tenha sua dicção, seu ritmo – sua linguagem, enfim, personalíssima. Inconfundível. Mas, não alheia às revoluções – aliás, bastante díspares entre si – do francês e do irlandês. Assim foi com a melhor ficção produzida posteriormente às de ambos, na segunda metade do século 20: um Carlo Emilio Gadda (Aquela Confusão Louca da Via Merulana), um Guillermo Cabrera Infante (Três Tristes Tigres), um João Guimarães Rosa (Grande Sertão:Veredas e Meu Tio Iauaretê), um Haroldo de Campos (Galáxias), para ficar só com estes poucos exemplos de prosas inventivas joyceanas até suas medulas; ou um Robert Musil (O Homem sem Qualidades), um Hermann Broch (A Morte de Virgílio), um José Lezama Lima (Paradiso), também só uns entre tantos prosadores de cunhos marcadamente proustianos. À excelência literária das obras destes discípulos, perpassa-as a ousadia semântico-linguística de seus mestres.Pois é precisamente à luz desta ousadia que é preciso saudar o lançamento de As Visitas Que Hoje Estamos (Iluminuras, 2012), primeiro livro de ficção do também poeta Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira (seu único livro até então publicado, em 2003, pela Nankin Editorial, era a coletânea de poemas Peixe e Míngua).Embora nada proustiano, o autor certamente traz, seja no ritmo fluido-fluente, seja na fragmentação dos relatos entrecortados, independentes, que se espraiam por suas 448 páginas, o fluxo de consciência joyciano – dominante, levado, em determinados momentos, como no relato inicial intitulado a gaveta direita, às últimas consequências. Também do autor de Ulisses Ferreira toma emprestado o humor sarcástico-corrosivo, fazendo dele um uso bastante, é preciso que se diga, peculiar, como em alguns momentos da peça os olhos de jussara, borgeanamente tomados de empréstimo de um suposto autor suicida e incorporados à obra. A propósito da peça em questão, este um outro aspecto ulissiano da obra: a intersecção de gêneros, mesclando segmentos em prosa, teatro, e poemas (alguns, belamente elaborados, consistindo capítulos à parte, como o que leva o título de homem, escada de si).Mas o que, talvez, de mais joyciano traga o livro de Ferreira seja o seu debruçar-se sobre o homem comum. Se o Leopold Bloom de James Joyce é o Ulisses urbano, imerso em sua rotina banal e corriqueira, na qual nada de extraordinário se passa – um anti-Ulisses, portanto, se comparado ao herói homérico –, em As Visitas Que Hoje Estamos há um sem-número de Blooms, narrando coloquialmente em primeira pessoa a um interlocutor oculto (o próprio Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira, comerciante na pequena cidade mineira de Arceburgo, onde vive e de cujas prosas com os clientes teria extraído o material para sua obra?) ‘causos’ de suas enfermidades, de suas sexualidades, de suas religiosidades, de seus cotidianos, enfim. E aqui, portanto, uma outra disparidade entre o Ulisses e As Visitas...: enquanto no primeiro o cidadão comum é individualizado na pessoa de Leopold Bloom, a vagar pela Dublin natal de Joyce, no segundo as joanas, os beneditos, os jacós, etc. – sempre em caixa-baixa, enfatizando suas cotidianidades e seus quase-anonimatos – acham-se inertes (recostados ao balcão da loja de Ferreira?), como que buscando, por via de suas falas, dar sentido ao marasmo constante de uma cidade interiorana (mais uma vez a hipótese se impõe: a Arceburgo de escolha do doutor em Estudos Literários pela USP?).



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