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segunda-feira, 13 de maio de 2013

Ensaios de simplicidade e refinamento

David Hume une sensibilidade estética e crítica com a profundidade da reflexão filosóficaLUIZ HORÁCIO“A arte de escrever com finura consiste, de acordo com o Senhor Addison, em sentimentos que são naturais sem serem óbvios. Não pode haver definição mais justa e mais concisa dessa arte.”Assim David Hume abre o ensaio Da simplicidade e do refinamento na arte de escrever. Senhor Addison é Joseph Addison, também ensaísta e fundador de The Spectator. No texto citado por Hume, Addison comenta o Paraíso perdido, de Milton.É exatamente esse detalhe — sentimentos — que dá o tom aos ensaios deA arte de escrever ensaio. Esse aspecto, bastante significativo, torna quase impossível identificar com precisão o que é objetivo e o que é subjetivo, pois ambos acabam fundindo-se numa única matéria, em que a parte principal compete ao subjetivo. Significa dizer que a emoção gerada pelo fato é mais importante que o próprio fato: o prosaico da vida cotidiana na tentativa de apropriar-se das imagens transitórias do mundo.O filósofo torna-se um passante observador, transita entre criador e criatura. Evitando os exageros provocados pela emoção, consegue unir sensibilidade estética com senso crítico e, feito um cronista, retrata os anseios cotidianos. Aborda, assim, tanto os aspectos subjetivos quanto os mais objetivos, como, por exemplo, a questão social.Estilo acessívelDavid Hume, filósofo escocês, viveu de 1711 a 1776. Dedicou sua existência aos estudos e à produção de obras “literárias”. A mais conhecida é o Tratado da natureza humana. O que a distingue da maioria é exatamente essa preocupação sobre o que torna o humano ainda mais humano — os sentimentos. Se possível, os bons sentimentos. Mas não é bem assim. O ser humano, no entender deste aprendiz, esquece paulatinamente da capacidade/necessidade de sentir. Principalmente no que concerne ao seu semelhante. Colocar-se no lugar do outro? Quem sabe. Desde que o outro tenha dinheiro, bastante dinheiro.Os ensaios de Hume combinam o estilo claro e refinado com a profundidade da reflexão filosófica, provando serem adequados ao público geral ao qual se destinavam, como se depreende da variedade de temas presentes nos trinta textos de A arte de escrever ensaio.O autor segue os passos do escritor e filósofo francês Michel de Montaigne, que, em 1580, publicou Ensaios, uma coleção de textos curtos e meditativos sobre diversos assuntos. Depois de Montaigne, muitos escritores alcançaram notoriedade como ensaístas, dentre eles Francis Bacon, Alexander Pope, Samuel Johnson e o próprio Hume.Neste último, os ensaios seguem as características mais gerais do gênero, embora se observe que, em parte deles, o autor tenha se preocupado com uma maior formalidade estilística e um encadeamento de idéias que o afastassem das nefastas e cansativas digressões. Seu estilo, como mencionado anteriormente, privilegiava a clareza e uma redação muito além do coloquial: culta, porém acessível. O autor pretendia alcançar, assim, o sincretismo entre as pessoas de letras e as pessoas comuns. Diz, em Da arte de escrever ensaio:A parcela elegante do gênero humano, que não está imersa na mera vida animal, mas se ocupa das operações da mente, pode ser dividida em indivíduos letrados e indivíduos de convívio social.No ensaio Da simplicidade e do refinamento na arte de escrever, Hume defende um estilo de escrita nem demasiadamente natural ou simples — como o das conversas informais —, nem tampouco excessivamente refinado, como encontramos em alguns escritores.Ornamento demais é defeito em qualquer gênero de obra. Expressões incomuns, exibição ostensiva de engenho, símiles incisivos, inflexões epigramáticas, especialmente quando ocorrem com demasiada freqüência, mais desfiguram que embelezam o discurso. Assim como o olho, ao examinar um edifício gótico, é distraído pela multiplicidade de ornamentos e perde o todo em virtude da atenção minuciosa que dedica às partes, também a mente, ao estudar um trabalho abarrotado de engenho, fica cansada e descontente com esse esforço constante de brilhar e surpreender.



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