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segunda-feira, 13 de maio de 2013

Amor, morte e redenção

Com densidade lírica e rigor da linguagem, Mariana Ianelli constrói “O amor e depois” entre a esperança e a constatação do fimPERON RIOS

Mariana Ianelli, autora de “O amor e depois”
Autora de obras de relevo para a poesia contemporânea, como Passagens (2003), Fazer silêncio (2005) e Almádena (2007),Mariana Ianelli surge com mais um livro notável: O amor e depois, publicado também pela Iluminuras. A escritora, agora, enfeixa quarenta e um poemas que enriquecem o silêncio e põem a ventura do evento amoroso em suspensão reflexiva. Impressiona a tensão que cada texto encerra, deixando entrever um rigor de linguagem que, na sua pouca transparência, coloca um famoso aforismo de Paul Valéry em pura evidência: aqui, leitor e poeta constroem as cenas e imagens em inevitável, inescapável cumplicidade.A instabilidade do sentido poético, aliás, não é menos que metáfora do mundo que os poemas elaboram. Se a elevação do júbilo, criada por todo amor luminoso, é a véspera do abismo que as decepções escavam, os motivos afluentes não poderiam ser mais afinados com o título do livro, no qual desembocam. O primeiro texto já antecipa: não se observa Neste lugar: “Nenhum traço de delicadeza,/ Só palavras ávidas/ E o tempo, / A devoração do tempo”. O espaço revela-se, de antemão, espinhoso e adverso, estendendo-se num tempo que se consome. Difícil não ecoar, ao percorrer linhas tão sombrias, o Eliot de The waste land, com toda a sua delicadeza devastada. Tendo por referente um cenário que se fecha e se defende, o poema o imita em suas formas e, qual Roseta nos desertos, se oferece apenas à decifração. Tudo isso, contudo, polvilhando uma beleza que se adivinha a cada verso preciso e sem excessos. Embora a coletânea guarde esse caráter sugestivo, O amor e depois é expressão que se pode traduzir com ênfase, na última estrofe do primeiro poema: “Um despenhadeiro, o céu/ E uma queda/ Sem alívio de esquecimento”.O vôo da fênixO abandono e a ruína serão temas permanentes no percurso da obra. O poema que intitula a antologia nos dá notícia da “passagem de uma hora branca,/ Entre outras tantas”: sem cores, tonalidades, namorada da morte. Aí, o coração manso “já nada espera nem recorda”, sinalizando uma desesperança refletida no descompromisso tanto com o futuro quanto com o passado — estátua do presente (presente imóvel e sem vida). Que se note, entretanto, uma singularidade essencial e que relativiza o ressentimento: o eu-lírico, ciente do fluxo do tempo e de suas mazelas, sublinha com sapiência e serenidade: “Como se o tempo não devorasse/ Também o desconsolo,/ E dele fizesse exsudar um leve perfume,/ Como se não arrastasse/ Cada corpo uma penumbra,/ Como se possível/ Em vida a paz dos mortos”. O personagem quase invisível, descrito pela voz poética, esquece, no auge da angústia, que o Tempo devora suas criaturas, inclusive a dor que ele um dia fabricou.Por outro lado, é preciso aceitar a impossibilidade de, em vida, gozar da plena solaridade, o que Mariana Ianelli diz numa imagem notável: “Como se não arrastasse/ Cada corpo uma penumbra,/ Como se fosse possível/ Em vida a paz dos mortos”. A provisoriedade do círculo material reverbera, portanto, certa charada existencial. Do ponto de vista lingüístico, os efeitos de mistério ganham contornos na elipse do sujeito, nas catáforas, que oferecem alguma névoa homóloga ao fogo-fátuo que os versos evocam. E, neste aspecto, Ianelli é filha de seu tempo, ao preservar o tom enigmático que a poesia atual cultiva.A dor das perdas que o amor germina vem acompanhada de certa resignação — que se vislumbra no peito experiente — e de alguma esperança digna de Sísifo. Mesmo se sabendo a impossibilidade da felicidade inteira, é preciso persegui-la e, após tantas vezes a pedra rolada ladeira abaixo, reerguê-la com o sonho de um “tempo de agora, sem castigo”. Drummond não diria outra coisa: “O primeiro amor passou./ O segundo amor passou./ O terceiro amor passou./ Mas o coração continua” (Consolo na praia). Essa recusa do aniquilamento ilustra-se na sublimação que todo ato criador comporta. Em Composição, por exemplo, a música é uma ação que se eleva sobre a pedra da carência: “A lenta e refinada arte/ De fazer nascer um adágio –// Extrair o peso a cada pedra/ E ver mais alto o edifício/ A cada coisa abandonada/ A cada rosto de si mesmo perdido –// Esse edifício transparente e musical/ Onde se vê um pássaro sobre ruínas”. O adágio encarna o andamento moderado, sem a aceleração ingênua da juventude e sem a lentidão excessiva dos derrotados. Trata-se de um equilíbrio que favorece o abandono de cada coisa, porque a vida também é a arte de perder — para se andar leve. Leveza, aliás, necessária para se erguer dos despojos um edifício sonoro, de tal modo que sobre as ruínas um pássaro-fênix possa, apesar de tudo, alçar algum vôo.


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