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segunda-feira, 13 de maio de 2013

Vozes precárias

Entrevista com Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira, autor de "as visitas que hoje estamos"YASMIN TAKETANI


Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira por Osvalter
Um livro de mais de quatrocentas páginas, de título curioso e autor desconhecido chamou atenção da imprensa recentemente. as visitas que hoje estamos (Iluminuras), de Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira, transita pelas capitais e pelo interior do Brasil, buscando recriar as “disparidades e conformidades” do país. Ainda que não faça reflexões diretas sobre política, a sociedade brasileira e as “grandes questões humanas”, tudo isso é evocado nas entrelinhas de cotidianos comezinhos. Para dar conta deste projeto ambicioso, que durante a escrita se viu ameaçado por certa modéstia do autor, a forma foi imprescindível: Ferreira usou de poemas, aforismos, peça teatral, fotografias e dezenas de textos de variados tamanhos, não necessariamente relacionados entre si. E de uma incrível “vozearia”, como sugeriu o crítico Luiz Costa Lima: “inúmeros personagens tomam a palavra, num ‘ruído geral’”. O conjunto final apresenta uma multiplicidade de personagens e situações sem ironia ou coitadismo, mas plenas de humor: são dramas familiares, conjugais, existenciais, sociais, etc. Entre o desespero e a fé, a esperança e o conformismo, esses personagens buscam permanecer de pé: “O negócio do mundo é derrubar com o rodopio da vida aqueles que andam soltos… E a gente vai se virando com ele, fazendo força para girar pro outro lado, torcendo pra tontura passar…”, considera um dos personagens.Nascido em Mococa (SP), Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira já morou na capital paulista, onde se formou em Letras pela USP. Em 1994, mudou-se para Aceburgo, no interior de Minas Gerais, onde vive atualmente. Seu primeiro livro, peixe e míngua (Nankin), de poesia, foi publicado em 2003. Já as visitas que hoje estamos levou dez anos para ser escrito. Na entrevista abaixo, concedida via e-mail, Ferreira fala sobre a conversa corriqueira que deu origem a este projeto, seu processo de escrita, sua recepção crítica, o momento atual da literatura brasileira e aposta na melhoria das condições dos professores para formar leitores.• A dicção de cunho rural-interiorano é predominante no livro. Apesar de morar numa cidade pequena atualmente, como foi verter a escuta, o convívio com essa dicção, em escrita?Tenho dito, em entrevistas recentes, que o livro articula duas dicções. A rural-interiorana e a urbano-citadina, com o perdão da redundância. Tive a idéia de escrevê-lo depois de um almoço com uma cunhada, num hotel fazenda. Ela reclamou dos filhos, dizendo que iam tomando seu espaço na casa. Ela estava brava. Brinquei, afirmando que aquilo era a vida. Envelhecer seria perder lentamente o espaço vital. Ela seria arrancada da sala, da cozinha. Ficaria com o quarto. Depois, nem isso, restando-lhe a gaveta direita da cômoda, onde guardaria umas coisinhas e esconderia a chave no bolso da camisola. Ela ficou assustada, em vez de rir… Em casa, percebi que o episódio renderia um livro. Fiquei um bom tempo procurando seu lugar numa forma literária que pudesse dar conta da história de vida dessa velhinha, aprisionada no próprio lar e, o que seria muito pior, em si mesma. Sempre tive para mim que a forma artística deve ecoar as questões do conteúdo que, por assim dizer, conforma. Ora, passei então a palavra à velhota, configurando assim o que seria o teor da obra. Gostei do que ouvi. Fui percebendo, no entanto, que uma única voz jamais poderia recriar, em todos os seus tons, a cor local que comecei a matizar. Passei a ouvir outras pessoas, cujas pinceladas pareciam às vezes borrar a tela anterior, ao mesmo tempo em que pintavam novos quadros, em telas que estariam em paredes opostas, até. Ou em outros cômodos da obra em construção. Ou ainda em outra casa caindo aos pedaços, na rua em frente, recostadas numa parede sem reboco, antiga. O estalo foi imediato. Isso é um romance… Fui por esse caminho. A multiplicidade de vozes deveria se amparar e desabar numa diversidade de gêneros, também, compondo e decompondo a realidade, os anseios das personagens e, por extensão, da sociedade brasileira. Então empaquei. Pensei comigo: caramba, isso vai dar merda. Parece que estou sofrendo de uma ambição alencariana malformada na pretensão de realizar um painel brasileiro condensado numa única obra… Li em algum lugar que o problema de nossa formação foi superado. Não concordo. Há conceitos que existem apenas na perpetuidade de sua reposição. É o caso. Nossos dois grandes clássicos, por exemplo, balizam um movimento fundamental para o entendimento do que seria, e é, o país. Machado de Assis (d)escreve um Brasil urbano e fala dele. Guimarães Rosa fala de um país rural e o (d)escreve. Meu objetivo foi tentar perceber o entroncamento problemático desses dois mundos que são, ao mesmo tempo, um só. Tentei me equilibrar no risco fronteiriço de duas realidades que são uma só. Por isso digo que a dicção da obra é rural-interiorana, como vocês bem observaram, mas é, ao mesmo tempo, urbano-citadina. Essa conjunção disjuntiva se espraia por toda a obra e nela se concentra. Daí a multiplicidade de vozes e de gêneros literários.


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