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quarta-feira, 10 de julho de 2013

Escritor do Sul de Minas, Antonio Geraldo Ferreira fala sobre sua carreira

Autor ganhou elogios do crítico Luiz Costa Lima por seu livro 'As visitas que hoje estamos (Iluminuras)Os 10 anos que Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira passou escrevendo – e reescrevendo – As visitas que hoje estamos (Iluminuras) parecem ter valido a pena, principalmente depois que o crítico Luiz Costa Lima escreveu artigo elogiando o livro, considerado uma das revelações do romance brasileiro contemporâneo. À pequena Arceburgo, no Sul de Minas, onde o autor mora com a mulher, Ana Lúcia, não param de chegar convites para palestras e feiras literárias. Embora envaidecido com o assédio repentino – “pois seria hipocrisia negar isso”, confessa –, Antonio Geraldo não se deixa levar pelo sucesso. Continua dividindo o dia a dia com a família, cuidando de duas lojas e se dedicando à literatura. Tanto que o novo romance, ainda sem data de publicação, já está a caminho. Paulista de Mococa e graduado em letras pela Universidade de São Paulo (USP), você é comerciante em Arceburgo. Como a literatura entrou na sua vida? A literatura, como experiência resumida da aventura do ser humano, faz parte de nossa essência, continuamente reelaborada. Quando um pai conversa com o filho, cria o enredo que se cruza com os outros enredos que o menino vai tecendo em seu cotidiano, num entrelaçamento potencialmente infinito de possibilidades. A literatura não substitui a existência, mas deve ser transbordante de vida. Meus avós conversavam comigo, desde muito cedo, com a mesma atenção dispensada aos adultos. Contavam seus dias, suas memórias, a expectativa do futuro... Não era alfabetizado, e meu pai lia para mim verbetes de enciclopédia. Ele parava e explicava o que eu não compreendia, e sua fala era texto, também. Naquele papel, naquele livro, estava escrita a minha vida. Se não se mostrar ao aluno, na escola; ao menino, nas ruas; ao filho, em casa, que aquela folha cheia de letrinhas respira o mesmo ar de seu mundo, a literatura dificilmente entrará em sua vida. Um professor não pode, apenas, jogar um livro nas mãos do aluno e cobrar a leitura para uma data qualquer. É preciso ler com ele, para ele, por ele. Pegar a sua mão e mostrar que ele também está ali, como sujeito, naquele texto. Comigo foi assim. É desse modo que ganhará fôlego para buscar, depois, o próprio caminho como leitor.Ter estudado letras o influenciou a escrever?Penso que sim. Mas a decisão de ser escritor não passa apenas pela universidade. A maioria dos escritores não estudou letras. José Saramago, por exemplo, tinha ensino médio, técnico. Mário de Andrade falava que o erro é o farol que ilumina o caminho da verdade. O problema mais sério, entretanto, pode ser colocado da seguinte maneira, aproveitando o mote do escritor paulista: quando se apagam sorrateiramente as luzes, o vozerio se transforma no perigoso burburinho da barbárie... Cabe ao intelectual, então, berrar com mais força. É preciso espernear. Escrever com o pavio curto. Não há outro caminho. Procuro ser escritor dessa maneira. Quero uma literatura que carregue a vida nos braços, mesmo que bufando, mesmo que pedindo ajuda. Por isso escrevo também carregado ao colo das personagens a quem dou voz, amparado nelas, empurrado por elas, escritor aos trancos, barrancos e solavancos. Gosto de repetir: o leitor é uma espécie de coautor daquilo que lê, sempre. A voz do escritor, portanto, mesmo no monólogo mais autocentrado, deve ecoar o coro às vezes mudo das pessoas que o cercam. Se vai permanecer, como obra, não importa. Não depende dele. A decisão de trocar a agitada vida de São Paulo por Arceburgo teve a ver com a literatura?Claro. Outro dia recebi um e-mail divertido da professora Letícia Malard, da Universidade Federal de Minas Gerais. Disse que gostou muito do livro. E comentou que alguns amigos teciam hipóteses romanescas para o fato de o sujeito aqui ter se mudado para Arceburgo. Alguns diziam que eu teria passado num concurso público. Outros, que me casara com a filha de um fazendeiro. Os últimos supunham que eu fosse rico. Dei a ela a seguinte resposta, que reproduzo mais ou menos aqui: minha cidade natal, Mococa, faz divisa de estado com Arceburgo. Estava lá, numa festa de São João, e conheci Ana Lúcia, minha mulher. Depois abri uma loja, outra loja... E fui pelejando. Estou pelejando. E lhe disse, por fim, que a conta bancária que aparece na página 39 do meu livro é verdadeira e aceita depósitos dizimistas dos crentes dessa perseguida religião a que chamamos de literatura. Aqueles que quiserem contribuir com minha obra não deixem de depositar, pelo amor da arte... Quanto ao tempo, é verdade. O ritmo do interior é outro. Um sobrinho que mora em São Paulo, certa feita, aqui em casa, olhou para o relógio e se espantou. Ainda 15h30? Em São Paulo, numa hora dessas, já seriam oito da noite...



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