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segunda-feira, 16 de março de 2009

Eu não mudei. Mudou o processo

Mauricio Dias

O livro do pernambucano e ex-ministro da Justiça Fernando Lyra, Daquilo que eu sei – Tancredo e a transição democrática (Editora Iluminuras), que será lançado dia 16 de março, enriquece com informações e análises os dias finais da ditadura militar, nos anos 1980, feita no ritmo imposto pela conveniência dos generais: lento e gradual.

Lyra, aliás, não titubeou quando perguntado por este colunista: a dita era “dura” ou era “branda”, como quer a Folha de S.Paulo?

“Dura, sem dúvida. Ditadura.”

Integrante do grupo de parlamentares chamados “autênticos” ou “radicais” do MDB (ancestral do PMDB) que atuou destemidamente contra o regime militar, Lyra tornou-se um escudeiro político, fiel e influente da vitoriosa candidatura indireta do moderado Tancredo Neves. Um marco da conciliação brasileira.

“Eu não mudei. Mudou o processo”, ele explica, convicto de que foi “a melhor maneira de alargar as conquistas democráticas”.

No livro, Lyra deixa nu o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ao relatar a disputa interna, no PMDB, entre Ulysses Guimarães e Tancredo Neves. Eis a história para a qual o autor dá o seguinte título: Com quem está Fernando Henrique?

FHC era considerado peça importante “no contexto partidário” para a escolha de Tancredo Neves, como candidato à Presidência da República.

– Certo sábado, fui a Belo Horizonte falar com o doutor Tancredo. De repente, no meio da conversa, ele me indagou de modo bem direto:

– Como está a posição de Fernando Henrique?

– Garanto que ele está conosco. Fernando Henrique é meu amigo e jamais negaria sua posição. Ele nos apoia pra valer, respondi.

– Pois veja esta entrevista.

Doutor Tancredo me mostrou, então, uma entrevista de Fernando Henrique ao jornal O Estado de S. Paulo daquele dia, com declarações habilmente apoiando Ulysses, ou que levam a essa interpretação.

– Isso tem uma explicação, doutor Tancredo. Veja que a entrevista foi concedida em São Paulo, numa sexta-feira à tarde. Ulysses também é paulista, como Fernando Henrique, que preside o PMDB paulista. De sexta-feira à tarde até segunda de manhã, ele está em São Paulo, mas em todos os outros dias da semana ele se encontra em Brasília, onde vai acontecer a eleição para presidente. Por isso, fique tranquilo, ele vota no senhor, ponderei.

FHC dizia em São Paulo e se desdizia em Brasília. Lyra consolida a imagem indecisa e claudicante do ex-presidente. O retrato de um político com perfil indefinido.



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