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segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Perversos, amantes e outros trágicos

Eliane Robert MoraesSÃO PAULO: ILUMINURAS, 2013, 216 P.Por Daniel Verginelli GalantinA amizade, esta relação sem dependência, sem episódio e onde, no entanto, entra toda a simplicidade da vida, passa pelo reconhecimento da estrangeiridade comum que não nos permite falar de nossos amigos, mas apenas lhes falar; não nos permite fazer deles um tema de conversas (ou de artigos), mas trata-se do movimento do acordo onde, ao nos falar, mesmo na maior das familiaridades, eles guardam a distância infinita; esta separação fundamental à partir da qual aquilo que separa torna-se relação (Maurice Blanchot)O último livro de Eliane Robert Moraes, Perversos, amantes e outros trágicos, traz textos publicados em diversos meios entre os anos de 1989 e 2008, transitando entre a teoria literária, filosofia, história e etnologia. Esta transição também acompanha o próprio itinerário de Moraes, que foi professora da Faculdade de Comunicação e Filosofia da PUC-SP, atuou como professora visitante na UCLA (Califórnia), Univeristé de Perpignan, na Univerisdade Nova de Lisboa, e hoje é professora de Literatura Brasileira no Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas na FFLCH da USP. Certamente a transdisciplinaridade é um dos elementos fortes do livro, que engloba um leque de referências autorais mais amplo que a literatura libertina do século XVIII ou as vanguardas européias dos séculos XIX e XX, os quais marcam a produção anterior de Moraes, em que se destacam Sade: a felicidade libertina, O corpo impossível, e Lições de Sade.A amplitude de autores abordados, de Heinrich von Kleist a Georges Bataille, passando por Juana Inés de la Cruz, Henry James e, como não poderia deixar de ser, também o divino Marquês, não pode ser considerada sinal de dispersão textual. Neste livro, Georges Bataille ou é a figura central ou divide espaço com mais um autor em cinco ensaios, enquanto Maurice Blanchot, Michel Foucault e André Breton constam em dois ensaios cada; considerando-se as vanguardas literárias européias do século XX, temos ainda quatro ensaios, dois dedicados a Breton, um a Guillaume Apollinaire e um a Louis Aragon. Talvez estas sejam as principais fontes de que Moraes se apropria para desenvolver os ensaios que constam neste livro, permitindo que noções como as de perda, erro (com toda ambigüidade do termo, referindo-se tanto ao sentido do não-correto quanto ao da errância, dos passeios ao léu) e acaso possam ser conectadas através do princípio do desvio, considerado pela autora como eixo que permitiu a reunião dos textos (MORAES, 2013, p.15).De certo modo, e seguindo as pistas fornecidas pelas idéias principais de Moraes, podemos dizer que todos os autores mencionados neste livro fazem parte das margens do ocidente. Não nos referimos tanto ao limite que define sua identidade, mas àquele onde o próprio ocidente deixa de ser o que é, tornando-se mais distante de seu centro que de seu fora. A referência ao limite faz com que não encontremos nenhum grande deslocamento no livro quando nos deparamos com um texto dedicado não a um autor específico, mas a um tipo de pensamento em que a própria idéia de autor, tão criticada por Foucault, é inexistente: referimo-nos, por exemplo, aos mitos indígenas reunidos pela antropóloga Betty Mindlin em Moqueca de maridos, abordados no ensaio “Eros canibal”. Seguindo essa mesma ideia a respeito dos limites, talvez pudéssemos dizer que em Sobre o teatro das marionetes Heinrich von Kleist estaria mais próximo do pensamento ameríndio do que de Descartes.



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