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segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Simpatia pelo mal

MANUEL DA COSTA PINTO Ensaísta constrói outro andar no edifício de interpretações sobre Marquês de Sade, que ficou décadas no ostracismo"NÃO É o aspecto assustador da obra que parece mover o interesse [de seus leitores], mas justamente a capacidade do autor de renovar "ad infinitum" o seu motivo central." A frase de Eliane Robert Moraes, extraída de um dos textos de "Lições de Sade - Ensaios sobre a Imaginação Libertina", se aplica também às interpretações do autor de "Os 120 Dias de Sodoma". As exegeses de Sade têm a plasticidade do desejo -e, tal como o erotismo, convergem sempre para o mesmo ponto, numa cadeia repetitiva que gera ora os prazeres do excesso, ora embotamento. Apollinaire (poeta surrealista que o apelidou de "divino marquês"), Paul Éluard, Mario Praz, Jean Paulhan, Simone de Beauvoir, Lacan -a lista de admiradores de Sade é enorme e, não por acaso, todos pertencem ao século 20, quando sua obra foi reabilitada, depois de décadas de confinamento no "inferno da Biblioteca Nacional" (seção da instituição francesa destinada aos livros com acesso restrito). Ensaísta notável, Eliane constrói mais um andar nesse edifício interpretativo. O livro reúne artigos publicados em diferentes periódicos, que adquirem aqui unidade e consolidam pesquisas iniciadas com "Marquês de Sade - Um Libertino no Salão dos Filósofos" (incluído na presente edição) e "Sade - A Felicidade Libertina" (Imago). Em sua prosa erudita, há várias referências a Bataille e Blanchot, mas talvez a leitura com a qual tenha mais afinidades seja a de Octavio Paz ("Um Mais Além Erótico: Sade"). Ela compartilha com o poeta mexicano a idéia de que o "princípio fundamental" do sistema sadiano é a "equivalência entre criação e destruição". Vício, perversão e assassinato sexual são algo mais do que expressão de um imoralismo sem peias. O autor de "Justine" funde transgressão dos costumes e o "ateísmo dos iluministas" numa cosmologia que "supõe tanto a corrupção do corpo por meio das idéias quanto a corrupção das idéias por meio do corpo". Ao criar a expressão "filosofia na alcova", Sade radicaliza o discurso libertino; em vez de justificar discursivamente práticas hedonistas, transforma a maneira de filosofar: "O homem concebido por Sade não é cindido: idéia e corpo operam em parceria". Vem daí "a dimensão radical de uma crítica que nunca admite a idéia sem objeto nem tampouco representação sem presença". A conseqüência é um realismo selvagem, um "materialismo cósmico, que põe em xeque o primado do homem no universo" e funda um ser livre de servidões como amor ou laços sociais.



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