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terça-feira, 24 de setembro de 2013

Literatura na alcova

Elias Thomé Saliba

Historiador, professor da USP e autor de As utopias românticas e Raízes do riso

Lições de sade: ensaios sobre a imaginação libertina, de Eliane Robert Moraes. São Paulo: Iluminuras, 2006.

Sade virou marca de champanhe e atração turística, já que fornece nome a um pitoresco Café, situado próximo às ruínas de um castelo no sul da França — local onde supostamente o Marquês teria vivido algumas de suas ruidosas aventuras. Seu nome virou uma espécie de marca desprotegida, inspirando um enorme aparato pornográfico, sites clandestinos e butiques de produtos eróticos. Nada mais distante de Sade do que tais anestésicos do desejo, produzidos unicamente para satisfazer a grande massa de consumidores. Mas todo este processo de árida trivialização — fruto da tirania mercadológica de nossa época — parece que só conseguiu desfocar ainda mais a obra de Sade, classificando-a, no máximo, como registro de um escritor pervertido, dotado de algum talento literário. Mas resistindo ao silêncio, à omissão, à censura, à diabolização, à medicalização e, até mesmo, às infinitas perplexidades, hesitações e equívocos dos intérpretes, a obra de Sade continua a ser um enigma. Esta talvez seja a principal afirmação contida nos ensaios de Eliane Robert de Moraes — a mais abalizada intérprete brasileira da obra de Sade —, que nos fornece, em Lições de Sade: ensaios sobre a imaginação libertina, um panorama completo e abrangente da obra e dos inumeráveis, oblíquos e tortuosos caminhos de sua leitura e decifração.

Num dos ensaios mais sugestivos do livro, a autora analisa a sintonia entre as novelas de Sade e a atmosfera sombria do roman noir, prenunciando a sensibilidade romântica. Mas a febre gótica e os cenários sinistros — nos quais o Castelo medieval, esta fortaleza lúgubre, ocupa um lugar central — só fizeram por desinfetar e aparar as rebarbas dos significados mais fortes e profundos desse "mito noturno". O maior exemplo desse processo de desinfecção é a história de Gilles de Rais, um pedófilo do século XV, que nossa época só veio a conhecer na figura infantil do Barbazul, personagem inofensivo das fábulas de Perrault. Até hoje, as ruínas dos castelos onde viveu o "Marechal das Trevas" são designadas pelos turistas de "Fortalezas do Barbazul". Sade, contudo, leva essa lógica noturna do roman noir aos extremos do transbordamento e do insuportável. Dentro ou fora dos castelos, a obra sadiana ilumina as paixões mais tenebrosas, clandestinas e proibidas da humanidade. "E ao fazê-lo — argumenta a autora — dá voz à violência de cada um, responsabilizando cada indivíduo, e não a 'nação', pelo crime cometido, desmascarando, assim, o que está por detrás do republicano sensível e virtuoso: a crueldade e a morte". E o Marquês sabia, também, como testemunho privilegiado, qual espaço de significações ele teria que forjar: "não havia um único indivíduo" — escreveu Sade — "que não tivesse experimentado, em quatro ou cinco anos, uma soma de desgraças que nem em um século o mais famoso romancista da literatura poderia descrever. Era, pois, necessário pedir auxílio aos infernos para produzir obras de interesse, e encontrar na região das quimeras o que era de conhecimento corrente dos que folheavam a história do homem neste século de ferro".

Já no ensaio mais longo do livro, "Um libertino no salão dos filósofos", Eliane de Moraes busca contextualizar a obra de Sade na modalidade do deboche — um gênero particularmente cultivado e popularizado na cultura da época revolucionária.

A autora conecta suas análises aos estudos de historiadores como Darnton, Hunt e Antoine de Baecque, que têm mostrado a notável proliferação de uma literatura que se servia de gêneros populares como o diálogo burlesco, o chiste indecente, a balada ofensiva, a arenga injuriosa e a narrativa voyeurista. Enquanto Sade estava na prisão, alguns dos seus poucos escritos, verdadeiros ou falsamente atribuídos a ele, entravam no obscuro e clandestino circuito de circulação de livros e informações. O circuito legal era centralizado em um ou dois grandes negociantes que controlavam a maior parte do setor e eram donos de estoques bem sortidos de livros. Mas a periferia do comércio livreiro, que colocava sua mercadoria fora do alcance da lei, era enorme: centenas de pequenos lojistas mambembes juntavam-se a um bando heterogêneo de encadernadores, mascates, escrevinhadores, mestres-escolas, padres paupérrimos, charlatães, falsificadores e aventureiros intelectuais. Uma gente que teimava em fazer circular uma literatura obscena, difamatória, irreligiosa, atéia, pornográfica e obscura. Representavam a legião boêmia dos subliteratos, traficantes de livros, trapaceiros, sempre às voltas com a polícia, com a ameaça da Bastilha — enfim, uma legião de escritores que se transformaria, na conjuntura crítica da Revolução, numa geração de rancorosos, sempre pronta a escrever qualquer coisa para sobreviver. A circulação dos livros do Marquês, em livros falsos ou numerosas contrafações, seguiu um pouco a lógica espúria desses circuitos clandestinos. Não era uma questão de plágio, porque tal noção — como demonstrou Darnton — não se aplicava à literatura clandestina, pois os livros, tal como as canções, dificilmente tinham autores individuais. Era um caso típico de intertextualidade desenfreada.

Deitando raízes tanto nas vertentes clássicas do estoicismo e do epicurismo, quanto em fontes da libertinagem renascentista e barroca, a autora mostra como Sade foi o catalisador das mais díspares fontes da filosofia libertina. Quando Sade escreve La philosophie dans le boudoir, em 1795, operava uma síntese original de uma notável tradição de pensamento. A alcova, espaço privilegiado da experiência libertina, aposento estrategicamente localizado entre o salão, onde reinava a conversação, e o quarto, destinado ao amor, simbolizava também o lugar de união da filosofia e do erotismo. Em Sade, a alcova é o avesso do lar, mas nada a estranhar, numa obra na qual tudo é pelo avesso. Um lugar que se qualifica no próprio andamento estapafúrdio dos textos de Sade, onde se alternam as cenas lúbricas e as discussões filosóficas num movimento vertiginoso, até o ponto de reuni-las num só ato.



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