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segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Haroldo de Campos: reedio marca 10 anos da morte do poeta

Nova edição de ‘A educação dos cinco sentidos’ permite repensar o lugar da obra de Haroldo de Campos, que via o poema como gesto político e estratégia de compreensão do mundo

Por Franklin Alves Dassie


Epicuro, na “Carta sobre a felicidade”, afirma que a morte — “o mais terrível de todos os males” — “não significa nada para nós”, uma vez que “quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos”. Essa compreensão da morte, porém, é um tanto ideal: ou fugimos dela, adiando de inúmeras maneiras sua chegada, ou a desejamos como fim dos “males da vida”. Não só isso: experimentamos a nossa morte na do outro, em uma espécie de antecipação do inevitável.

E sentimos a morte na ausência do outro, no vazio que ela, terrivelmente, nos impõe. Inventamos, assim, formas de presença para amenizar a falta: a fotografia, o vídeo, as homenagens. Ou essa presença é inventada pelas pessoas que nos deixam: por exemplo, em um livro.

A reedição de “A educação dos cinco sentidos”, quase três décadas após sua publicação e no décimo aniversário da morte de Haroldo de Campos, recoloca em jogo a tensão entre ausência e presença. Há um tom de homenagem implícito na escolha da data de lançamento — e explícito quando João Ubaldo Ribeiro, no depoimento “Meu amigo Haroldo”, lembra o “lugar vago” deixado pelo poeta e lamenta que a “convivência cara a cara tenha sido tão escassa”. Porém, é a partir mesmo de uma lembrança do prosador baiano que a leitura da ausência/presença irá sugerir a importância do livro — e da escrita — como forma menos melancólica e mais interessante de presença. João Ubaldo diz: “Ele tinha curiosidade sobre tudo, queria saber de tudo e, com isso, abria e mostrava caminhos”.

A curiosidade haroldiana, além de generosa, pois abre caminhos para o outro, é um impulso de criação. No texto que o próprio Haroldo escreve sobre sua trajetória, a curiosidade aparece outra vez: “Estudar mais algumas línguas (no momento, o hebraico bíblico; manter a enteléquia ativa: curiositas)”. A enteléquia, passagem da potência ao ato na filosofia aristotélica, faz par com a curiosidade não apenas no estudo de línguas, mas, sobretudo, na experiência criativa que, de certo modo, ultrapassa a morte.

A enteléquia aparece encenada no poema “Opúsculo goetheano“, como força que faz o impossível: “manter a enteléquia/ ativa/ quero dizer/ como o fósforo/ (branco)/ que acende dentro d’água”. Força mínima, nada escandalosa, que seja “talvez um pó/ depois que a asa cai/ e desala/ (cala)/ um íris/ um cisco/ luminoso”. A referência e o uso do conceito aristotélico remetem a uma epígrafe de Goethe, retirada de uma carta a Eckermann, onde o escritor alemão afirma: “Não tenho dúvidas sobre o nosso perdurar, pois a natureza não pode dispersar a enteléquia”. A morte diante do poema é descaracterizada: a ausência é colocada em questão, porque se há uma voz — um “cisco luminoso” que acende embaixo da água — existimos ainda no poema, mesmo quando “o mais terrível de todos os males” se faz presente.

Reeditar “A educação dos cinco sentidos” é ouvir a voz de Haroldo e repensar as questões que ele aí encena, é também lidar com essa presença generosa, que abre e mostra caminhos, deixando-nos uma herança importante. Herança essa que é a passagem de uma “função utópica”, típica das vanguardas, para uma “função pós-utópica” — o esvaziamento do projeto (com seu olhar voltado para o futuro) e o enfrentamento do presente, procedimento que solicita uma noção de poema como gesto político e os “cinco sentidos” na estratégia de compreensão do mundo.



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