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quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Mar Chiquita

Um trecho de "Hotel Éden"

Luis Gusmán
TRADUÇÃO WILSON ALVES-BEZERRA

A decisão de recomeçar o romance coincidiu com o aparecimento de um diretor de cinema que havia lido no jornal a notícia do iminente leilão do Hotel Éden. Ele sabia, através de uma reportagem, que Ochoa certa vez tinha se interessado pela história. Então falou com ele por telefone. Achava que, aproveitando a lenda, dava para fazer um filme antes que o hotel fosse reformado e transformado num empreendimento turístico.

Nem bem desligou o telefone, Ochoa mergulhou num sem-número de imagens. Via as cenas do filme passando, via sua vida passando. O hotel ainda não tinha sido demolido.

As paredes, cheias de rachaduras, pintadas de amarelo-ocre e os ladrilhos da esplanada com o desenho original e a cor esmaecida mantinham, apesar de tudo, algum vestígio do passado. O interior era um assunto mais complicado. As banheiras descascadas, as pias sem as torneiras, os pedaços de gesso caídos e os buracos no forro davam uma aparência desoladora.

Daquele esplendor restavam os dois leões que guardavam a entrada, em cujas jubas os passarinhos tinham feito ninho, perfurando a pedra. Talvez um pouco de música, um velho disco com a voz de Hugo del Carril ou de Berta Singerman recitando, pudesse devolvê-lo um pouco à vida.

Pensou nos personagens do roteiro e tentou encontrar similares para eles em pessoas reais. Incluiria Mônica na história? Se sim, como dar a ela um corpo? Parecia impossível representá-lo. Tentou reconstruir seus traços nos rostos das atrizes da moda, mas nenhum o satisfazia para o papel de Mônica.

Imaginou-a entrando no Éden, atravessando a fileira de eucaliptos e parando no pátio vazio, enquanto o procurava com os olhos para que ele lhe desse uma explicação.

Nunca suspeitou que uma obsessão, em princípio inexplicável, pudesse se transformar em filme. Além do mais, que outra pessoa tivesse a capacidade de contar a história o deixava mais tranquilo. O profissionalismo que o cineasta demonstrou durante a entrevista foi decisivo para aceitar a proposta. Bastou ele dizer: "Eu achei a história bem cinematográfica" para pôr Ochoa a caminho do Éden.

Foi quando Ochoa decidiu viajar a Córdoba. Até então, para Graciela, era como se fosse uma viagem de fim de semana. Já para ele significava outra coisa. Antes de se encontrar com o Éden, precisava dar uma volta, precisava respirar.

Escolheu Mar Chiquita porque tinha a informação de que, por volta de 1970, quando La Falda se tornou mais concorrida, haviam se mudado para lá. E parte dos funcionários do Hotel Éden acabou trabalhando nos hotéis do lago.

Desde o começo da viagem a figura de Mônica ronda a cabeça dele. Passaram-se algumas semanas desde que a viu pela última vez.

A paisagem não e diferente nesta parte da província. À medida que se afastam da cidade, o terreno vai se tornando mais plano, e as serras vão ficando para trás.

Com o passar dos anos, a parte semissubmersa da cidade de Mar Chiquita foi desaparecendo debaixo d'água. Ele tem de se esforçar para lembrar quantos anos já transcorreram desde a grande inundação.

Quando esteve com Mônica no lago, antes da inundação, era verão e conseguiram fazer um passeio de bote. Ainda guarda algumas fotos daquela viagem. Naquela época passava o tempo tirando fotos dela, com medo de perdê-la a qualquer momento. Uma sensação que lhe dá um frio na barriga só de lembrar.

De noite, o lago é uma massa enevoada. Na outra margem dá para ver umas luzes que parecem sempre a ponto de se apagar; noutros tempos, Ochoa teria imaginado ser uma troca de sinais transmitindo uma mensagem em código.

Ele se aproxima da costa para tentar distinguir se o que vem chegando é uma embarcação, já que pensou ter ouvido o barulho abafado de um motor. Noutro tempo teria jurado: "Os nazistas estão trocando mensagens. O lago é um refugio de nazistas".

Como um arqueólogo cego, ele cava a areia tentando encontrar restos de louça dos hotéis que ficaram submersos na região.



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