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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Desvelando desvios

HENRIQUE MARQUES-SAMYN

A produção bibliográfica de Eliane Robert Moraes é incontornável para quem se dedica a pesquisas que abordem a literatura adjetivada como erótica ou pornográfica — categorias invariavelmente imprecisas e deslizantes, sempre evocadas a partir de instáveis critérios ancorados em perspectivas morais.

Com efeito, trata-se de uma pesquisadora envolvida com o tema desde a segunda metade da década de 1980, quando optou por mergulhar nas revoltas águas da literatura do Marquês de Sade, cuja turbidez jamais deixou de perturbar quem nela imergiu em busca da nitidez e da claridade iluministas.

Da investigação que realizou ao longo do mestrado nasceu a dissertação posteriormente publicada em livro, logo alçado ao lugar de referência obrigatória:Sade — a felicidade libertina(Imago, 1994). Nos anos seguintes, Eliane Robert Moraes continuaria a percorrer os subterrâneos caminhos dos quais muitos preferem manter distância: assinou textos de apresentação para obras “malditas” de autores como Guillaume Apollinaire e Pierre Louÿs; pensou a desfiguração da figura humana desde o final do século 19 até as primeiras décadas do século 20, a partir de autores da estirpe de Lautréamont, Hoffmann e Bataille, numa tese de doutoramento também publicada em livro— O corpo impossível, já na segunda edição (Iluminuras, 2012) —; e continuou a investigar a obra do autor deA filosofia na alcova, reunindo seus escritos em um segundo livro sobre a literatura sadeana:Ensaios sobre a imaginação libertina (Iluminuras, 2006).

Todavia, se pensar os desejos e os corpos que rechaçam os parâmetros convencionais é já uma tarefa que impõe a necessidade de percorrer sendas que podem conduzir a terras demasiado longínquas, Eliane Robert Moraes não recusou a contígua tarefa que essa proposta reflexiva lhe impunha, a saber: o desafio de pensar o próprio desvio; ou, mais ainda: de enfrentar o desvio como um modo de pensar — “talvez o modo de pensar por excelência da literatura”, em suas palavras. E já o título do livro que agora vem a lume revela a seriedade com a qual a pesquisadora encarou essa tarefa, cumprida não apenas no âmbito acadêmico, mas também em textos veiculados em jornais e revistas de mais ampla circulação. De fato,Perversos, amantes e outros trágicos atesta as qualidades de um trabalho pertinaz e constante, reunindo mais de duas dezenas de artigos, publicados ao longo de cerca de duas décadas. Correndo os olhos pelo índice, deparamo-nos com uma espantosa heterogeneidade: ali figuram os nomes de autores das mais diversas épocas e nacionalidades — do Marquês de Sade a Vladimir Nabokov; de Stendhal a Octavio Paz; de Juana Inés de la Cruz a Henry James; de Goethe a André Breton. Provenientes de nações e gerações diversas, todos esses autores surgem, no entanto, como membros de uma mesma família quando confrontados por aquele pensamento que neles divisa uma disposição marcada pela intensidade para interrogar o desvio. Uma família, diga-se de passagem, à qual vários desses nomes provavelmente não reconheceriam pertencer.



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