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quarta-feira, 23 de abril de 2014

Gertrude Stein tem 18 peas traduzidas e reunidas em livro pela primeira vez no Brasil

Material reflete período mais experimental da dramaturga americana

LUIZ FELIPE REIS

RIO - Difícil imaginar que algum outro endereço parisiense tenha abrigado mais espíritos criativos por metro quadrado que a casa de Gertrude Stein (1874-1946), localizada na Rue de Fleurus, 27, nas proximidades do Jardim de Luxemburgo.

— Paris foi o centro vital dos modernistas, uma cidade aberta a experiências de linguagem em todos as artes. Gertrude reunia todos esses artistas de vanguarda em casa, e esse diálogo a levou a arriscar na sua escrita, e no teatro — conta a pesquisadora Dirce Waltrick do Amarante.

Doutora em Teoria Literária pela Universidade Federal de Santa Catarina, Dirce assina, com a pesquisadora Luci Collin, a organização e primeira tradução para o português de 18 peças de Stein, reunidas agora no livro “O que você está olhando — Teatro (1913-1920)” (Iluminuras).

— É a primeira vez que parte do teatro dela poderá ser lida em português — diz Luci, lembrando que as peças foram reunidas pela primeira vez no livro “Geography and plays”, publicado em 1922 nos Estados Unidos pela editora Four Seas Company. — São obras inovadoras, escritas no período mais experimental dela, após chegar à França.

Após deixar os Estados Unidos e se estabelecer em Paris, em 1903, e depois de oficializar, em 1908, sua união com Alice Toklas, Stein fez da sua casa, entre as décadas de 1910 e 20, um fervilhante palco de festas e encontros intelectuais que fizeram eclodir o que se concebeu como modernismo. Ali, desfilaram, duelaram e se embebedaram geniosos e geniais criadores, como Picasso e Matisse, Cézanne, Gauguin, Braque, entre outros. Nas paredes da casa, viam-se penduradas as primeiras telas deles — até ali objetos ainda pouco valiosos, assinados por vanguardistas cuja importância só seria reconhecida mais tarde. Mas, para além da visualidade das telas e tintas, o sobrado de Stein era uma cena habitada por artistas das mais variadas linguagens, como toda a “geração perdida” de escritores americanos expatriados, incluindo Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald e John Dos Passos, fotógrafos como Man Ray e Carl Van Vechten, poetas como Appolinaire e Ezra Pound, além de dramaturgos como James Avery Hopwooda e Jean Cocteau.

— O teatro imaginado por Stein é como o reflexo do que acontecia naquela sala, ou seja, a cena como espaço de encontro e convivência das mais diferentes linguagens artísticas — analisa Luci.

— A escrita dela descende de Cézanne e Picasso. Stein constrói o texto em camadas de sentidos incompletos, solapa a ideia de comunicação, de entendimento unívoco, rompe com a ordem previsível e autoritária do discurso, da retórica, se lança a uma comunicação aberta, mas é ainda hoje mal interpretada porque morremos de medo de tudo que não nos dá bases seguras. Seu teatro é um convite a artistas e espectadores criativos e corajosos.

Espero que as pessoas se aventurem.



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