Titulo Autor      


  noticias


quarta-feira, 30 de abril de 2014

Dane-se o padrão fifa

Marcelo Coelho

A coletânea 'Eram Todos Camisa Dez' narra os encantos e misérias dos campinhos de terra

O jogo entre o Legião e o Atlético Ceilandense, pelo campeonato de futebol de Brasília, foi às dez da manhã de um dia útil.

No estádio Bezerrão, o público era de nove pessoas, rendendo um total de R$ 90. Talvez o público de Brasília se ressinta do fato de que o estádio não tem, digamos, um padrão Fifa.

Não faz mal; com vistas à Copa do Mundo, foi construída uma arena nova, o estádio Mané Garrincha, com capacidade para 71 mil espectadores. Só que, como alerta o jornal Valor, a média de público no campeonato estadual de Brasília, o Candangão, é de pouco mais de mil pagantes por jogo.

Continuo lendo o que escreve Patrick Cruz, em reportagem publicada na sexta-feira passada. Seu objetivo é mostrar a face real do futebol brasileiro.

Veja-se o caso do goleiro Adeilson, do União Cacoalense, de Rondônia. Ele chegou a passar nove meses sem time (e sem salário); arranjou-se como servente de pedreiro e entregador de folhetos publicitários.

Há também a história de um torcedor como Tibério Barreto, torcedor do Auto Esporte de João Pessoa. Comemorava um gol de seu time contra o Sousa, no campeonato paraibano, quando caiu da arquibancada do estádio Almeidão --que desobedece ao padrão Fifa. Morreu de traumatismo craniano.

Personagens assim poderiam aparecer nas crônicas de Luiz Guilherme Piva, colaborador do blog de Juca Kfouri, que lança agora a coletânea "Eram Todos Camisa Dez" (ed. Iluminuras).

Ele se volta, assim como a reportagem do "Valor", para o mundo dos campinhos humildes, dos meninos descalços e das bolas feitas de papel velho enrolado em fita crepe.

O assunto se presta a muita pieguice, mas Luiz Guilherme Piva sabe driblar esse perigo. Primeiro, porque é muito bom quando se trata de descrever as coisas com precisão.

O campinho de terra, depois de uns dias de chuva, resseca no sol forte. Tem uns pedaços do barro que endurecem e ficam como lascas de ovo de páscoa. Outros pedaços cedem sob os pés e esguicham barro esmagado entre os dedos.

Mesmo um garoto urbano, acostumado às quadras de prédio, pode reconhecer essas cenas da experiência simples, feitas ao mesmo tempo de precariedade e força, de fragilidade e abundância.

Não se está lamentando a falta de gramados perfeitos para as crianças do Brasil; que ninguém derrame lágrimas por isso. Trata-se, quem sabe, de lembrar que o jogo é mais importante do que o sucesso, e que a sensação da terra úmida nos pés é mais importante do que o jogo. Dane-se, portanto, o padrão Fifa.

Piva tem outra tática para evitar o sentimentalismo. Trata-se de reservar para o finalzinho do jogo a surpresa decisiva.

Tome-se, por exemplo, a história do camisa 5 que morava e comia de favor numa oficina, que tem cabelo de estopa, pingando óleo. É um miserável, que nunca se aventura além do meio de campo.

Serve, diz o narrador, como um escudo a proteger o seu gol. Fora dali não tinha nada, conclui o texto --mas acrescenta que, para o personagem, talvez fosse uma bênção ter o que guardar...

Em outro texto, Piva reflete sobre os saudosistas do futebol. Os saudosistas de hoje não são grande coisa, diz. Bons são os saudosistas de antigamente: falavam de um futebol que eu não vi.

Ele prossegue. Quanto mais passa o tempo, mais extraordinárias as jogadas. Vem o arremate. Fica cada vez mais provável que o seu time venha, enfim, a vencer aquela decisão perdida, dolorosamente, em algum momento da sua infância.

Um comentário final. É curioso que, num país ébrio de ufanismo futebolístico, seja tão forte a paixão pela derrota --pelo jogador fracassado, pelo time de várzea, pelos anos sem conquista de campeonato estadual.

Talvez porque, ao contrário do famoso lema, acreditemos que o povo unido sempre será vencido. A esquerda viciou-se na derrota.

Assim, rejeitamos o espetáculo global, os bilhões de dólares em jogo; não serão nossos. Há alguma usurpação nisso tudo.

Simpatizo com a atitude, mas vejo seus limites. Apesar das misérias da várzea, é provável que nunca tenhamos tido tantos times e jogadores como hoje em dia. De todo modo, não me deprimo com quem está na quarta divisão; ainda que a gastança com a Copa seja uma estupidez, o problema da injustiça se resolve em outro jogo, em outro campo.



EDITORA ILUMINURAS - LTDA
Rua Inácio Pereira da Rocha, 389 Cep: 05432-011 - São Paulo - SP Tel/Fax: (11) 3031-6161