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terça-feira, 7 de outubro de 2014

O manto de Adriana

Em sua casa de Santiago do Chile, conhecida como “La Chascona” _ ou “A Descabelada”, em homenagem aos cabelos desgrenhados de sua terceira mulher, Matilde Urrutia _ o poeta Pablo Neruda mandou construir uma passagem secreta, ainda hoje oculta atrás de uma cortina da sala de jantar. Através dela, Neruda tinha o hábito de despontar na sala, subitamente, vestido de marinheiro ou de cigano, para divertir os amigos que o esperavam para a ceia. O gosto pelas armadilhas e pelas falsificações não foi, porém, um atributo exclusivo do poeta chileno. É muito tênue a fronteira entre a criação e o disfarce. Poetas se desdobram em outros homens, vestem máscaras sutis, saem de si para escrever. Mostram-nos, enfim, que percebemos apenas uma parte da realidade. Revelada a outra parte, a primeira, por contraste, parece falsa.

A história de Neruda me ocorre enquanto leio "Parte da paisagem", livro de poemas de Adriana Lisboa (Iluminuras). Surge-me, em particular, na leitura de um poema, “Nada consta”, em que a poeta diz: “As coisas vão bem, de modo geral/ disfarçadamente bem. Peruca, bigode postiço,/ identidade falsa”. Mais à frente, dando outros detalhes, Adriana continua: “Os hematomas se camuflam com/ roupas, lenços, maquiagem”. Enquanto escreve, o poeta trabalha, apenas, com uma parte do que é. Só uma parte da paisagem se revela, enquanto a outra, que se esconde, sustenta o poema, emprestando-lhe o caráter de armadilha. Poemas são ciladas _ e, por isso, é sempre com grande cuidado que devemos lê-los. São engenhos para capturar partes da vida, sabendo que outras partes se mantêm ocultas. Ao leitor cabe trafegar entre o dito e o não-dito. Entre o explícito e o oculto. Uma longa manta _ como o véu de Isis _ encobre as palavras.

O livro de Adriana Lisboa se abre com versos do poeta norte-americano W. S. Merwin: “aparentemente acreditamos/ nas palavras/ e através delas”. O jogo das aparências sustenta o que chamamos de realidade. Mesmo na mais límpida paisagem, há algo a escavar _ há uma parte que se mantém em segredo e que só em um mergulho (“através”) se revela. Sugere Adriana: “Pense na poesia/ como o dedo cavando a fresta onde/ há ainda uma pequena chance”. A palavra serve “só enquanto testemunha/ da própria ineficiência”. A palavra não mostra, mas _ rasgando a paisagem ao meio _ se limita a sugerir. “Use da palavra apenas/ seu grau de sugestão de vida”. É com visões parciais e ideias inconclusas que um poeta trabalha. Não só o poeta: todos nós. Não devemos desprezar essa limitação: ela é, a rigor, o que chamamos de vida.

Por isso mesmo, porque mexe com o imperceptível, criar não é fácil. Quase sempre preferimos ficar com o que já conhecemos. “Em geral/ somos os bichos domesticados que você e/ os de sua geração tanto temiam”. Quando nos deparamos com um poeta _ Adriana Lisboa _, porém, essas precauções se desfazem. Ao escrever, o poeta desafia seu leitor: “você nunca/ ficou sabendo a que país eu pertencia”. Ainda assim, é preciso entregar-se, é preciso acreditar. “A nossa outra chance/ mora na cartola de um mágico”, escreve Adriana. E especifica: “No país que há dentro da cartola,/ essa nação de coisas honestas/ e sem astúcia”. Só confiando nas palavras atravessamos a paisagem partida da poesia. Nela, algo se esconde não para nos destruir, ou nos prejudicar, mas para nos assombrar.



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