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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Clichês de luxo

O crítico de arte e curador do Masp Teixeira Coelho discute o estatuto da cultura na sociedade atuaMARCELO COELHOCOLUNISTA DA FOLHA Com fluência intempestiva e luminosa, os cinco ensaios de "A Cultura e Seu Contrário", do crítico Teixeira Coelho, dedicam-se a desarmar alguns dos mais arraigados clichês do discurso politicamente correto, quando se aplicam ao universo da cultura. Por exemplo, o de que a cultura tem um "papel positivo" a desempenhar na sociedade. "Espera-se", diz o autor, "que a cultura mantenha o tecido social (...), a cultura combateria a violência no interior da sociedade e promoveria o desenvolvimento econômico".Contra esse processo de "domesticação da cultura", Teixeira Coelho insiste em lembrar que a cultura só faz sentido se for expressão da negatividade, do que traz mudança e -até mesmo- destruição.Impondo a seus raciocínios uma sintaxe quase sem fôlego (que redundou em grande efeito estético em seu livro "História Natural da Ditadura", Iluminuras, 2006), Teixeira Coelho chega a interpretar de modo favorável uma das frases mais escandalosas do século 21: a do compositor alemão Karlheinz Stockhausen [1928-2007], que considerou o atentado ao World Trade Center uma obra de arte insuperável.Não é preciso forçar tanto a nota do radicalismo, entretanto, para reconhecer a pertinência das preocupações do autor. Sua irritação diante dos clichês bem-pensantes, no que diz respeito à política cultural, não exclui uma atitude que, no fundo, é mais sensata e equilibrada do que faz sugerir o passo acelerado, quase furioso, da argumentação.Tomem-se, por exemplo, suas críticas à ideia de "identidade cultural". Nenhuma identidade, afirma Teixeira Coelho, "é fixa, estável e perene (...). Toda identidade, como toda cultura, foge de si mesma". O autor refere-se, nesse ponto, às ideias do iluminista francês Montesquieu (1689-1755), em seu ensaio sobre o conceito de gosto.Identidade fixa"A primeira obrigação de cada um de nós para consigo próprio", explica Teixeira Coelho, "é a ampliação da esfera de presença de seu ser, o que se consegue mudando de lugar (viajando), mudando as fontes de nossas sensações (ver uma catedral que não conhecemos, uma pintura que ainda não visitamos, um autor que ainda não lemos)...". Bem diferente, com certeza, da concepção corrente de cultura nacional, em que o importante é "perseverar no ser", manter uma identidade fixa.Sem nenhum ufanismo, seria então o caso de reconhecer na famosa instabilidade da cultura brasileira (classicamente qualificada como "fora do lugar" pelo crítico Roberto Schwarz) uma condição ao mesmo tempo "confortável" e "desconfortável" no cenário globalizado.Cultura flutuanteA cultura brasileira é "flutuante" -cabendo reconhecer o que há nisso de cinismo, de um lado, e de potencial para a mudança, de outro.Não se considere, entretanto, "cultura" como um conceito autônomo, capaz de ser esmiuçado somente em suas ambiguidades internas. Numa reviravolta até certo ponto surpreendente, o último ensaio de "A Cultura e Seu Contrário" inspira-se numa ideia do cineasta Jean-Luc Godard, para quem "a cultura é a regra, a arte, a exceção".Todo o potencial negativo do conceito de cultura, que Teixeira Coelho invocava contra os defensores da identidade e da fixidez, passa agora a ser atribuído ao conceito de obra de arte: nesta é que se concentraria, segundo o autor, todo o poder de hostilidade ao mundo, de "ampliação da presença do ser", de ruptura, de fugacidade... O que tornaria, em última análise, possível pensar numa "política cultural", mas não numa "política artística", se se quiser respeitar o projeto próprio a cada obra de arte em particular.



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