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quarta-feira, 4 de março de 2009

Sófocles, Sófocles, Sófocles

Os sinais de vitalidade na extensão e na qualidade do que se traduz vêm superando os tradutores vexaminosos FÁBIO DE SOUZA ANDRADECOLUNISTA DA FOLHA QUANDO SE fala em traduções, o leitor brasileiro tem cada vez menos do que se queixar.O mercado do livro ainda comporta preguiça ou vigarice ocasional, como no caso recente da Nova Cultural, editora que alimentou a plágio descarado toda uma coleção, mas nada disso passa mais batido. Se não chegamos a rivalizar com tradutores onívoros, como os franceses ou os americanos, aos poucos deixamos de fazer feio, e os sinais de vitalidade na extensão e na qualidade do que se traduz vêm superando os vexaminosos.Recém-publicadas, três versões diretas das tragédias que abriram ("Aias") e encerraram ("Filoctetes", duas vezes) a produção em vida de Sófocles (496-406 a.C.), mais prolífico dos dramaturgos gregos, provam a tese. Apesar de propósitos e poéticas próprias, têm em comum o apuro editorial (textos bilíngues, apresentação e notas pertinentes, bibliografia), o cuidado filológico nas traduções e a aposta no não óbvio.Preenchem lacunas (não se trata de mais um Édipo Rei em português) e colhem frutos, todas, de uma decisão acadêmica acertada dos classicistas brasileiros: a de investir na oferta de textos criteriosos dos clássicos em vernáculo.Heróis sofocleanos típicos, indivíduos do excesso (da excelência, no combate, da inflexibilidade, no caráter), confrontados com as razões da coletividade, Filoctetes e Ajáx sofrem ambos os reveses da sorte, privados da fama que, entre os gregos, coroa a existência dos mortais e premia a vida justa e bela. Herdeiro do arco divino de Héracles, Filoctetes é traído pelos comandantes na campanha contra Tróia, Menelau e Agamemnon e o astucioso Odisseu à frente. Sofrendo de ferida incurável no pé, vê-se abandonado numa ilha deserta, privado do convívio civilizado. Quando um oráculo mostra que sua presença é indispensável para que caia o inimigo, é hora de ajustar contas com sua honra ofendida.Aias, ou Ájax, por sua vez, o segundo em força entre os gregos, sente-se ultrajado por não ter seu valor reconhecido e não receber as armas de Aquiles, morto em combate. Desprezando ajuda divina, arquiteta um plano de reparação do agravo imaginário, mas recebe de Atena, por punição, a loucura. Cego de fúria, avança cruento sobre ovelhas indefesas, seguro de estar matando a traição os inimigos. Quando recobra a lucidez, enfrenta o desafio de buscar uma saída digna para a vergonha pública que mancha seu nome.Conflitos entre pragmatismo político, reverência religiosa, altivez autossuficiente e compaixão humana fazem o interesse dessas peças sempre atual. Ter a chance de redescobri-las por meio de textos cuidados, essa é a boa novidade.



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