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quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Anjos no exílio

Escrevi outro dia sobre aqueles políticos e intelectuais que, em plena Guerra Fria, procuraram manter-se numa situação de equilíbrio, apontando os erros dos dois lados em conflito.

Mas pode haver problemas nessa busca de independência. Veja-se o caso narrado por Matteo Palmieri (1406-1475), um erudito florentino. No seu interminável poema "A Cidade da Vida", ele imagina um grupo de anjos que, diante da revolta de Lúcifer contra Deus, preferiu não tomar partido.

Ficaram, por assim dizer, em cima do muro.

Na verdade, o lugar onde se assentaram não era exatamente um muro: tornou-se a Terra, e esses anjos somos nós. Longe da "imoderada bondade" dos santos de Fra Angelico, e também da "imoderada maldade" dos demônios de outro pintor renascentista, Andrea Orcagna, somos "exilados conscientes", impregnados da melancolia delicada que há nas figuras de Botticelli.

É o que leio num célebre livro sobre a Renascença, escrito no final do século 19 pelo inglês Walter Pater (1839-1894). "O Renascimento" aparece agora na coleção "Pólen", da editora Iluminuras, com tradução de Jorge Henrique Bastos.

Walter Pater (pronuncia-se "Pêiter") foi um dos líderes do movimento esteticista, que encontraria seu apogeu na figura de Oscar Wilde.

Seus escritos anunciam a ideia de que a busca da beleza, por si mesma, justifica a vida. Da breve conjunção de átomos de que somos feitos, nada restará de nosso; tudo será matéria para outra coisa, pedra, inseto, gelo ou pétala.



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