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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Nem tudo são flores

Nos poemas de "Parte da paisagem", Adriana Lisboa evoca um eu lírico despretensioso e atento ao seu tempo

Parte da paisagem, de Adriana Lisboa, reúne poemas sob diversos enfoques, nos quais um eu lírico, carregado de lembranças e projeções futuras num tempo presente, movimenta-se. Por vezes, surpreende-nos, e por outras, é movido por uma serenidade inabalável. Esta parece comprometida em Nirvana, por exemplo: “— Quebraram meu Buda japonês/ e um árduo desejo de vingança… Crença e descrença, ruídos e silêncios, luzes e sombras, amor e desamor, paz e inquietações negociam espaços e sentidos”.

Apesar da advertência: “Esqueça a palavra —”, ela é o veículo de uma busca, “use da palavra apenas/ seu grau de sugestão de vida/ (mesmo sendo o índice/ da sua morte). Entre a palavra e o silêncio transita o ensaio de vozes que dialogam entre si, aproximando tempos e espaços, aparentemente, distanciados. É quando a poesia flui “testando a voz” de um sujeito lírico despretensioso, mas atento ao seu tempo e a outras vozes que alimentam sonhos e sentidos precários, mas indispensáveis para se seguir adiante. Como sinaliza o poema Promessa: “O prato da casa/ é a sobrevivência, então/ (…) continuo de pé. Um joão-bobo,/ um náufrago de pança inchada/ subsistindo de sol a sol.”

A lírica aqui retoma sua forte marca musical, dentre outras referências. A linguagem verbal da palavra escorregadia, na sua flagrante insuficiência, apela para outras, como a musical, cinematográfica, teatral e corporal nas quais a pausa, o silêncio e o nonsense potencializam a construção de sentidos. Em Para voz e piano, o que mais dizer se “quando não se espera que ele venha,/ (…)/ ele surge à porta/ no meio da festa…” Um Ele que não só adentra pela porta, é o objeto de um amor desmistificado das promessas românticas, mas como fato inquestionável se faz presente. No mais, tudo são “cantares” que estabelecem seus fios e desafios de leitura.

Em Anjos, as imagens cinematográficas de Wim Wenders passam por uma releitura, ou melhor, socorrem as palavras na busca de uma “beleza em câmara lenta” que expressem o desejo de nossa humanidade, invejada pelos anjos que com suas asas sobrevoavam o céu de Berlim, mas que se ausentam nesse nosso presente de século 21. “Onde estão os anjos bonitos,/ os anjos de Wim Wenders?”



Fonte:Gazeta do Povo


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