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quarta-feira, 25 de março de 2015

Análise: Poeta português Herberto Helder foi autor de obra antológica

Fonte: Folha de S.Paulo

JORGE HENRIQUE BASTOS
ESPECIAL PARA A FOLHA

O que diria o leitor menos afeito a poéticas estranhas, ao ler versos como estes: "A menstruação quando na cidade passava/ O ar. As raparigas respirando,/ Comendo figos –e a menstruação quando na cidade/ corria o tempo pelo ar./ Eram cravos na neve. As raparigas/ riam, gritavam –e as figueiras soprando de dentro"?

Porventura, ficaria surpreendido com a sucessão de imagens criadas pelo poeta implodindo no interior da realidade.

Este poeta chamava-se Herberto Helder, era português madeirense, nascido em 1930, numa ilha algures no Atlântico, e conhecida no Brasil por causa do vinho que lá se produz, o Madeira.

Ele morreu na última segunda (23), aos 84 anos, de causa ainda não revelada.

Sua obra surgiu para revolucionar a lírica portuguesa do século 20. Ao estrear na literatura com o livro "Amor em Visita" (1958), fincou suas bases, a partir daí, sobre um terreno surrealista, com uma alta voltagem experimental, demonstrando que o autor vivia sob tensão criativa.

E aí apareceram obras que conquistaram legiões de admiradores e leitores, como "A Colher na Boca" (1961), "Electronicolirica" (1964), "Antropofagias" (1971), "Photomaton & Vox" (1979), "Os Selos" (1989) e "Do Mundo" (1994).



LUCIDEZ

Continuou a publicar mesmo depois dos 80 anos, demonstrando que sua lucidez se mantinha aguda e com uma expressividade poética jovialíssima em obras como "Servidões" (2013) e "A Morte sem Mestre" (2014).

Ao mesmo tempo em que granjeava notoriedade, um problema começou a se desvelar. Sua radicalidade em não surgir na mídia, a defesa feroz da sua privacidade, o desprezo e a recusa pelos prêmios literários revelaram um autor que não se vergava ao poder dos holofotes.

Apesar desta atitude, Helder só aumentou a curiosidade em torno de seu nome e de sua obra.

Na juventude, estudou na Universidade de Coimbra, mas não acabou o curso. Na década de 1960, viajou para França, Holanda e Bélgica, lugares que se tornaram cenário dos contos de "Os Passos em Volta" (1963).

Teve as mais diversas profissões –publicitário, jornalista, meteorologista, tradutor. Mas na verdade, ele foi apenas poeta.



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