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segunda-feira, 6 de abril de 2015

O poeta sem mestre

É difícil que o mistério sobre o que foi a vida de Herberto Helder se esfume completamente. Não colaborou com as tentativas biográficas, não corrigiu, não emendou, não deu pistas, não falou com jornalistas, recusou encontros com os leitores, prémios, mundanidades. Considerado quase unanimemente o maior poeta da segunda metade do século XX - e por alguns o maior poeta do século XX, Pessoa incluído -, Herberto Helder morreu na passada segunda-feira, ficando envolvido por um respeitoso silêncio. Uma cerimónia fúnebre privada, a família sem prestar depoimentos e a própria Porto Editora - grupo que adquiriu a Assírio & Alvim, onde o poeta publicava há décadas - enviou um comunicado para os jornais e informou que não falaria para além disso.

Resta a sua enorme obra - modificada de cada vez que Herberto Helder refazia a sua antologia - a voz no CD em que leu cinco poemas de A Morte sem Mestre e a última fotografia tirada por Alfredo Cunha, a pedido do editor Manuel Alberto Valente, a 19 de Fevereiro. Os próprios livros de originais, a pedido do autor, eram impressos em edições muito limitadas, não satisfazendo a procura por uma obra que se tornou mítica, sobretudo a partir de 1994, quando o poeta recusou receber o Prémio Pessoa, um título de consagração atribuído pelo jornal Expresso e pela Unysis. “Não contem a ninguém e entreguem-no a outro”, terá dito.

A sua última entrevista fora em 1968 e todas as ulteriores tentativas de aproximação por parte de jornalistas seriam recusadas. José Quitério, durante muitos anos crítico gastronómico do Expresso, conta que o conheceu numa tertúlia num café no Largo da Misericórdia, em Lisboa. Em 1992 (dois anos antes da nega ao Prémio Pessoa), a pedido do bar Procópio - um poiso de jornalistas que organizava anualmente uma entrega de prémios a personalidades da área da cultura - Quitério foi encarregue pela dona, Alice Pinto Coelho, de ir ao café entregar a Herberto Helder a distinção na categoria de poesia. “Lá peguei na dita estatueta, pesadíssima, e fui ter com ele, sabendo já que ele não gostava de prémios. Disse-lhe que era uma coisa para levar na brincadeira mas, mesmo assim, ele recusou, nem quis ver. De modo que fui portador do prémio do Procópio para o Café Expresso e de volta”, conta Quitério.

José Quitério, hoje com 72 anos, recorda ter conhecido o poeta, já então uma figura muito respeitada, mais velho, como o mentor da tertúlia informal que se agregava a partir das 16h no Café Expresso, no Largo da Misericórdia. “Ele vinha da Assírio& Alvim, onde ia falar com o Manuel Hermínio Monteiro, o editor que entretanto já morreu, e ficava ali a conversar até por volta das 19h. A partir daí descia a pé até ao Cais do Sodré e apanhava o comboio para Cascais, onde morava”. Muitos traçam dele o retrato de uma figura sisuda. Quitério, que o acompanhou, não fazendo parte do círculo mais íntimo, durante uns dez anos, entre 1984 e 1994, prefere defini-lo como “hermético na escrita mas muito convivial e com muito sentido de humor”. Recorda que para a Antologia da Poesia Portuguesa - Edoi Lelia Doura, encomendada por Hermínio Monteiro, Herberto Helder incluiu o poeta António Gancho, “um tipo que era verdadeiramente maluco e que às tantas, na maluqueira, inventou que o Herberto Helder lhe roubava os poemas. E ele lá aturava isto a rir”, conta.



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