Titulo Autor      


  noticias


sexta-feira, 17 de abril de 2015

Em ‘Sermões’, Nuno Ramos dá sequência à sua arqueologia mal comportada

Fonte:O Globo

Novo livro do escritor e artista visual persegue uma ontologia entre o divino e o humano, sem perder de vista nossa animalidade

RIO - No começo do “Sermão de Nossa Senhora do Ó”, pronunciado na Bahia, em 1640, Padre Vieira empenha a palavra e diz que as obras sempre se parecem com seu Autor, Deus. Mais adiante, na terceira parte, depois de elaborar a figura convicta e infinita do círculo elíptico, própria para os impasses do sermão como potência e ação da fala, diz que “pode haver um infinito maior que outro infinito; porque se houver infinitos homens, também os cabelos hão de ser infinitos; porém o infinito dos cabelos é maior que o infinito dos homens. Pois assim como pode haver um infinito maior que o outro infinito, assim pode haver um imenso maior que outro imenso”. Isto tudo, afirma ele, só a boa filosofia pode admitir.

Nuno Ramos, num contágio entre escritor e artista visual, ou seja, o poeta, publica agora seu mais novo livro, “Sermões” (Editora Iluminuras), que começa assim: “Tenda / é assim que chamo / isso: peitos ou / púbis, ranho / morte de tudo na vida de um som / f / eliz, grito, gogó / tromba de um azul elefante / instante dilatado, rangido / de dentes e mãos pedindo pau / cona, não / terrenos, documentos, promessa ou h / erança, não / talheres, testamento, mas amor líquido / visgo que vai na risada / untuoso / (ajuda a entrar).” Ficamos diante de uma experiência informe entre autor, narrador e texto, mas também clássica porque muito próxima de algumas invenções da retórica.

O livro retoma a ideia do sermão como uma arquitetura da vida e não apenas da obra em estado fixo (ou movente) ou do gênero (em prenúncio de apagamento). Tanto que Nuno escreve em duas linhas, dando voz ao seu narrador cansado das coisas do mundo, um velho professor de filosofia, uma espécie de movimento contrário ao próprio texto: “Cansei de avisar / cansei de fazer sermão”. No livro de Nuno o sermão, em queda e despedaçado, deixa de ser uma busca de sentido entre um lugar para Deus na História e a salvação do homem em sua luta com o infinito da existência.

Se há no sermão aquele que prega, o que se compromete em torno de um dizer com a força política do corpo para tocar um outro, através do gesto de Nuno podemos lembrar de Emmanuel Levinas propondo uma responsabilidade pelo outro. Um “para-o-outro desinteressado”, que é quando o homem importa ao outro homem. Isso pode ser lido como sacrifício ou, de outro modo, como sacramento, que seria uma projeção de Deus sobre o mundo — mesmo quando Deus não há mais. O que remonta à ideia do sermão para uma autofagia, comer a própria carne, e nos deixa também pensá-lo como uma segunda projeção mais simples, a daquele que ora. Projetar é transformar as coisas, as substâncias; e “a oração, toda inteira, não é por si”, diz Levinas.



EDITORA ILUMINURAS - LTDA
Rua Inácio Pereira da Rocha, 389 Cep: 05432-011 - São Paulo - SP Tel/Fax: (11) 3031-6161