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sexta-feira, 17 de abril de 2015

Tentações de um escritor

Fonte:Brasileiros

Nuno Ramos lança Sermões, um longo poema narrativo, com doses iguais de sexo, escatologia, decadência e morte, que é, possivelmente, seu livro mais pessoal. Em conversa em seu enorme ateliê, ele conta como foi se lançar nessa aventura e fala de sua surpreendente carreira de escritor, que já conta com dois prêmios Portugal Telecom

O ateliê do multiartista Nuno Ramos – pintor, escultor, músico, cineasta e escritor – parece o interior de uma baleia. Muitas de suas maiores obras estão ali, desmembradas e embrulhadas, como escombros à espera de ganhar vida novamente. Há pedaços de avião, de barco, formas misteriosas, placas de metal, cadeiras de barbeiro, enormes telas de madeira, longos panos de todas as cores e texturas. Em dois pontos, fornos encimados por panelões, com os quais ele prepara o material para suas novas obras, amplas pinturas feitas com vaselina derretida, tinta e colagem com os mais variados elementos.

Em meio a tudo isso, ele parece absolutamente à vontade, sem a ansiedade bíblica de um Jonas, mas com o entusiasmo de um experimentador. Bem ao fundo, perto da “cauda” do galpão no Cambuci, em São Paulo, há um sofá surrado e respingado por diversas cores. É a aconchegante sala de visitas onde acontece a entrevista. Por ser mais conhecido como artista plástico, Nuno surpreendeu o mercado editorial ao vencer o Prêmio Portugal Telecom duas vezes, primeiro com o livro Ó, na categoria principal, em 2009, e depois com Junco, na categoria poesia, em 2012. Sermões já é seu sétimo livro. Em linhas gerais, traz a história de um filósofo fornicador, que mergulha desesperadamente no sexo durante uma estadia em Ouro Preto e aos poucos vê seu corpo e sua libido minguar até um final inesperado.

Brasileiros – Esse livro tem um jeito de catarse, de jorro mesmo, e me fez pensar menos no Drummond, seu mestre confesso, e mais em autores de poesia exuberante, meio surrealista, como o português Herberto Helder, que faleceu recentemente, e o Jorge de Lima de Canção de Orfeu. Você concorda?

Nuno Ramos – Talvez. Gosto do Helder, mesmo sem conhecer muito, e li o Jorge de Lima nessa nova edição da Cosac Naify. Na verdade, acho o Drummond exuberante, mas como ele é melhor que todos nós, fica muito concreto. O que sinto em mim como defeito é que, às vezes, fica tudo muito abstrato, não dá para saber bem o que o sujeito está falando. Escrevo muito rápido e reescrevo muito lento, não sei se todo mundo é assim. Para mim, o texto vem muito fácil, e depois passo muito tempo refazendo e, ao refazer, sempre tento loucamente tornar as coisas mais palpáveis. Acho que é um livro um pouco como o Ó, em que dei tudo o que eu tinha, foi muito fácil fazer, vinha mesmo, o tempo todo.

Parece, inclusive, muito pessoal.

Tirando a parte da mãe, que escrevi de fato quando a minha mãe morreu (e foi a parte que mexi menos), o restante é bem ficcional. Tem um lado biográfico, que é a idade do cara (Nuno está com 55), é meio um herói rothiano, do Philip Roth, que está no último estertor.



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