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terça-feira, 28 de abril de 2015

O velho e o sexo: a poesia é a origem e o fim no novo livro de Nuno Ramos

JOCA REINERS TERRON

RESUMO "Sermões", novo livro de Nuno Ramos, parte das obsessões sexuais de um velho professor de filosofia para narrar sua crise de identidade e seu declínio. Longo poema dividido em sete partes se revela, paradoxalmente, como o livro mais próximo do romance dentro da obra do artista plástico e escritor.

A cada nova entrega literária, Nuno Ramos confunde mais a audiência. Não é diferente com o recém lançado "Sermões" [Iluminuras, 208 págs., R$ 48]: ao contrário daquilo que seu título indica, independe da tradição retórica longamente vinculada à exegese religiosa e ao padre Vieira. Ao final desse livro libidinoso há padres, porém a exposição oral a que se propõem é de outra ordem, não aprovada pela Santa Sé.

A promiscuidade temática tem início pela forma, ou pela matéria informe ao qual o autor habituou seus leitores: em contraste com a lucidez do pensamento, o texto se retorce qual serpente num labirinto que emboca em novas saídas.

Linha a linha, esguicho a esguicho, o protagonista goza pelo falo e pela boca, reafirmando simultaneamente "cogito ergo sum" e ejaculo logo existo.

De difícil apreensão à primeira leitura, a tênue linha narrativa (somente explicitada em nota final) é esgarçada pelo discurso incessante pontuado por indicações de bruscas mudanças de cenários, de imagens e de tons.

O surrealismo de cartão-postal se impõe ("Em nossas vértebras/ corre o suco dos despertos/ cavalos/ insones/ boiando no lago"), antecipado pela paisagem de Ouro Preto e a igreja do Rosário.

Ali, um "professor de filosofia faz sexo debaixo de uma cúpula e sobre um tapete com a imagem de um tigre atacando ovelhas", explica a nota. O flagrante predatório dessa cena de caça é um preâmbulo ao desfile animalesco que oscilará, ao longo de toda a extensão do poema, entre o elemento kitsch e o sublime esbravejar em linguagem alucinada do filósofo-poeta:

"Somos tigres devorando/ em mordidas lentas/ cervos tenros nessa hora". Ovelhas, cervos, lobos, carcarás sedentos, polvos, um hamster, um peixinho, todos querem a cona quente da carneira.

Essa sedutora terceira pessoa é algo que Ramos arrasta, salvo engano, desde "Ó" (Iluminuras, 2008), adotando-a para registrar, naquele livro, as metamorfoses de um corpo único, o dele e o nosso, à materialidade de nossa íntima existência comum (penso em textos como "Manchas na pele, linguagem" ou "Túmulos").

Essa tática de aproximação, assim como as incorporações animais, é inesperada, insinuando-se sem aviso em meio ao discurso em primeira pessoa do singular:

"Elas respiram/ como cantoras/ são cantoras nessa hora/ respiram/ muito mais que nós./ Uma cantora/ deixa o ar passar, arrastando/ amídalas e manadas/ badalos de bronze/ búfalos, risadas/ para a corrente eólica./ Que horas são?, pergunta/ quando se recupera/v /amos embora?/ põe a calcinha/ e aí não respira mais."

O resultado, no caso de "Sermões", adquire em certas passagens a locução de um cômico messianismo de botequim, de camaradagem entre chapas, o elogio da paudurescência em tempos contrafeitos ao livre voo do caralho.

Nesse sentido, o poema canta as últimas ereções de um tiranossauro à beira da extinção –e, de outro modo seria impossível, o canto se confunde a maior parte do tempo com um urro, com o esganamento da glande, agarrando-se à grossura do discurso pornô que também irrompe entre frases as mais altaneiras, em uma desabalada e vulgar despedida do mundo.

Da abertura ("Tenda") à perda da mãe na segunda parte, "(Parêntese. Moenda. Minha mãe nascendo.)", movimentos se invertem: da conquista do corpo da mulher amada –como se fosse um país a ser invadido– à morte materna uma cisão se interpõe.



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