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terça-feira, 5 de maio de 2015

Erotismo se apropria de longo poema sobre declínio e solidão em 'Sermões'

Sérgio Medeiros - ESPECIAL PARA O ESTADO - O Estado de S. Paulo  

Tema é pouco explorado na produção de Nuno Ramos

Deitado num colchão na sala, um velho solitário vive na companhia apenas da reprodução de um quadro famoso. É um pobre clown, como ele próprio reconhece. Essa cena beckettiana está no novo livro do artista plástico e escritor Nuno Ramos, Sermões (Iluminuras), dividido em sete seções que narram a vida de um professor aposentado de filosofia obcecado por sexo.

A menção a Beckett não é inesperada, pois, num livro anterior, Ensaio Geral (Globo, 2007), Nuno Ramos “entrevista” o escritor irlandês, que afirma: “Posso, desde pequeno, ficar assim, como estou, na posição em que cair, indefinidamente”. O protagonista de Sermões jaz depois do gozo num tapete ou num colchão, na posição em que tiver caído, até a próxima cópula, quando se reerguerá para em seguida cair outra vez. A noção de “queda” parece orientar uma faceta formal do poema, que logo chama a atenção: a desconstrução de palavras. O objetivo é sempre destacar uma letra ou sílaba, e parece ser, à primeira vista, um procedimento ingênuo e esteticamente frustrante. Assim, pululam no vasto poema, desde a página inicial, versos como “Expele sua cola no um / bigo ou colo, cab / elo ou boca”.

Esse procedimento primário alude, obviamente, àquilo que se abre durante a cópula, ao mesmo tempo que mostra, por meio do deslocamento das sílabas de um verso para outro, o escorrer, o pingar, etc., remetendo ao gozo. As letras e sílabas soltas acabam adquirindo, porém, no evoluir da trama (trata-se quase de um romance), eficácia visual e sonora, e finalmente se tornam algo de necessário. Pois, de repente, o leitor passará a se perguntar se Nuno Ramos não estaria, com humor peculiar, brincando o tempo todo com convenções e clichês literários. O poema se arrasta, mas não se leva a sério: surgem nele frases como “Adeus / literatura”, ou “voz vazando um verso ruim”. Alertado para a dimensão irônica de Sermões, o leitor perceberá que a lengalenga (expressão usada no poema) do professor aposentado é intencional e que o kitsch é buscado afoitamente pelo escritor.



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