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domingo, 31 de maio de 2009

Daquilo que eu sei

Logo no título, que se reproduz acima, Fernando Lyra demarcou os limites do seu relato.

Prometeu implicitamente, e cumpriu, restringir-se ao território da política.

Evitou desenvolver, como é habitual em livros de memórias, um enredo completo das experiências vividas. Fugiu às tentações da auto-referência, embora os que o conhecem mais de perto saibam que teria muito a dizer na abordagem de outras particularidades. A contração gramatical (Daquilo) reduziu mais ainda o âmbito narrativo. E o verbo ganhou um sentido modesto de conhecer, anulando a conotação geralmente explorada por quem se imagina um sabe-tudo.

Destacado ator da vida pública brasileira em um de seus momentos mais cruciais, Fernando apresenta um depoimento focado no papel que lhe coube. Quando precisou expor ideias, teve a sabedoria de reproduzir entrevistas dadas no calor da hora, sem retoques de conveniência. A parte memorial, escrita duas décadas após a transição, também possui o mérito da rigorosa fidelidade aos acontecimentos.

Revelador e sem falsas habilidades, fluente como as boas conversas, o texto cativa o leitor do começo ao fim. Mostra-nos um homem sem ódios, mas rigoroso em seus juízos. Político íntegro, que não faz da integridade, como está em moda, uma estratégia na promoção de imagem. Articulador nato, mestre na agregação, e que sabe guardar os arroubos para a tribuna, manejando sempre, no convívio, as armas da persuasão. Neste ponto, um Tancredo com sotaque de Pernambuco.

Fernando Lyra oferece, perante a história, uma relevante comparação entre o presidente Tancredo Neves e o doutor Ulysses Guimarães. Próximo de ambos na resistência à ditadura militar e depois nos eventos da transição democrática, o ex-ministro não usa rodeios, nem metáforas. O seu julgamento é de uma precisão cirúrgica. Com todo respeito ao liberal paulista e reconhecendo seus méritos no processo de abertura, Lyra escreve:“Ulysses era um radical por fora e um conservador por dentro. Eu preferia alguém mais uniforme e coerente, que também reunisse grande competência política. Foi por isso que escolhi Tancredo Neves como meu candidato a presidente da República. Ao contrário do doutor Ulysses, ele era todo moderado, interna e externamente, mas de uma coerência absoluta.”



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