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terça-feira, 19 de maio de 2015

Sade - A Felicidade Libertina ganha reedição

Fonte:O Estado de São Paulo

Ensaio de Eliane Robert Moraes é um convite para ler e reler Sade

“É preciso queimar Sade?”, perguntava Simone de Beauvoir. Desde os anos 20, com Apollinaire e os surrealistas, parte da intelligentsia francesa já havia decidido que não. E, no entanto, a obra do controverso marquês nunca deixou de perturbar: se não a queimamos, o que fazer com ela? Sade – A Felicidade Libertina (2015), de Eliane Robert Moraes, é um convite irresistível para ler, reler e ler novamente Sade. O ensaio, que sai agora em segunda edição (a primeira é de 1994), se organiza em cinco capítulos que discutem os gestos e os lugares privilegiados da literatura sadiana, por intermédio dos quais Eliane conduz seu leitor (e sua leitora) com delicadeza e rigor, finesse e firmeza, liberdade e método, fazendo jus ao que há de melhor em matéria de crítica literária – e de libertinagem.

Roberto Saviano é um dos destaque da Flip 2015; veja programação completa Nova trilogia de Laurentino Gomes será sobre a escravidão Viajar e comer, gestos devassos. O primeiro capítulo revela a etapa inicial da busca do devasso: viajar é o que possibilita o “deboche”, fim supremo. Como bem demonstra a autora, partir era gesto fundamental no universo do imaginário setecentista – basta lembrar, a título de exemplo, dos inúmeros relatos de viagens, reais e imaginárias, publicados ao longo do século 18, ou ainda das aventuras de Casanova e do abade Prévost pelos caminhos de uma Europa todavia cheia de mistérios. Dentro da lógica do libertino de Sade, viajar se torna um imperativo ainda maior já que a mobilidade produz a energia necessária à prática devassa; é ela que promove, pela renovação das vítimas, a repetição incessante do gozo. Investigando a associação entre curiosidade filosófica e ímpeto antropológico, entre observação científica e simples pretexto para a renovação do prazer, Eliane nos mostra que um dos gestos primevos do libertino sadiano é viajar.

Comer é o outro gesto determinante da trajetória e do caráter desse devasso, e o terceiro capítulo de Sade. A Felicidade Libertina nos lança num universo gustativo e olfativo surpreendente, delicioso e repugnante. A ideia do banquete se expande em diferentes direções na análise da autora, a qual, sem nunca perder de vista os meandros da prosa sadiana, nos dá notícia da sutileza dos significados que adquirem ali a fome e o apetite, o vinho e a água, a carne e o pão. E não é só relevante compreender o que e como se come e se bebe, mas igualmente o que se diz sobre tudo isso. Nesse quesito, a sujeira se torna combustível da luxúria. Não só os excrementos e a urina, mas também o sêmen e a carne humana, entram como ingredientes indispensáveis em rituais que, como explica Eliane, nada têm de aleatórios, pois implicam uma ordem da qual depende o deboche.



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