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segunda-feira, 6 de julho de 2015

Ilha das verdades excessivas

SIDNEY ROCHA

ilustração VALENTINA FRAIZ

SOBRE O TEXTO Este trecho abre o epílogo do livro "Claro-Escuro", romance de formação do escritor cearense radicado em Pernambuco Sidney Rocha, que a Iluminuras lança em agosto.

O céu dentro de um inferno. Inverossímil. Ali nasceu Jeroni Fernanflor. No dia de São Narciso de Jerusalém. Mundo onde as mentiras se soldavam às verdades. Ali cresceu Jeroni Fernanflor, na ilha das verdades excessivas.

Ele é o menino no alto da escadaria, invadido por silêncios e agarrado ao corrimão, olhando para Cristina de Fernanflor. Dali vê também o relógio de coluna alta bem à entrada do salão, trambolho das mansões endinheiradas no mundo todo, pronto a humilhar o visitante com seu pêndulo de marfim, os tique-taques em gotas rouquejando naquele poço, mesmo quando em algumas horas do dia o silêncio fosse a lei mais severa.

Cristina está indo se sentar junto à janela, "poseur" no teatro das tardes suarentas, senhora e refém da plateia de escravos. No caminho, deixa o frasco gotejar essência de lilases brancas sobre os móveis, até alcançar o grande tapete de peles ao canto da sala. Ela está eternamente vestida para grandes ocasiões nenhumas. A plateia vê Cristina pelas brechas das venezianas da sala, e ela enxerga as sombras das cabeçorras espichadas no chão. Eles a contemplam pelas portas entreabertas, no reflexo das vidraças, ou em olhares dissimulados enquanto enceram o chão e, para eles, tanto como para menino no corrimão da escada, ela se faz acreditar invisível, e se desnuda com delicadeza de sua outra pele de cetim, agora o outro braço, até a manobra queimar todo o ar dos pulmões e ela seguir o dia carregada por frissons.



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