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segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Barthes, Godard e a nouvelle vague

Por Olgária Matos

ILUSTRÍSSIMA – FSP

Professora de filosofia da USP analisa livro de semiologista que traça relações entre o pensamento de Roland Barthes e a obra do cineasta Jean-Luc Godard. Sobretudo a partir do conceito de “punctum”, estabelece-se também o vínculo entre o diretor de “Acossado” e outros nomes da nouvelle vague, como Truffaut.

“Barthes em Godard”, de Leda Tenório da Motta, se constrói associando literatura, imagem e morte. Fosse apenas isso, o livro [Iluminuras, 216 págs., R$47] traria erudição fílmica, literária, histórica, filosófica e das artes visuais no âmbito da nouvelle vague; seria uma narrativa crítica e preciosa do ideário que compreende o cinema como escritura, a escritura como pintura, a pintura como cinema às voltas com as derivas do político.

De maneira mais essencial, porém, o que organiza esse livro é a questão propriamente metafísica, a da relação de essência da arte com a vida e com a morte, no que tudo isso tem, simultaneamente, de cotidiano e de perturbador.

A autora nos mostra de que maneira as imagens são ” lugares” de memória que envolvem rastros de uma presença, cuja expressão é um trauma. Nas revistas de crônicas policiais, tão presentes no cinema noir admirado no círculo dos “Cahiers du Cinéma”, de Claude Chabrol a François Truffaut, também a inspiração de Jean-Luc Godard:

“Em ‘Bande à Part’, [Godard] põe os dois jovens outsiders que compõem o trio dos protagonistas do filme para lerem em alta voz, num prado bucólico ao lado da casa que estão para roubar, alguns trechos sangrentos da crônica policial do jornal ‘France Soir’ […], o que não pode não nos levar à expertise de Barthes sobre as manchetes de jornal [que] proporcionam, ao mesmo tempo, uma cobertura da vida diária, regular e banal, e o espetáculo de sua brusca ruptura. No limite, são flertes com a sobrenaturalidade.”

Fotografia, poesia e cinema se conjugam na constelação dos “Cahiers du Cinéma” dos anos 1950 e 1960, em particular nos laços entre Godard e Barthes mas também Truffaut. Em todos, a preponderância do rosto, quer dizer, do “close-up”, do “gros-plan”, da máscara. Catherine Deneuve, em “A Sereia do Mississipi” de Truffaut, Anna Karina em “Viver a Vida” de Godard, Greta Garbo nas “Mitologias” de Barthes são, há um só tempo, “thauma” e trauma, a testemunhar que a arte não nasce só do “maravilhamento” mas de um páthos, já que o espanto encantado golpeia e atinge.

Nesse sentido, observa a autora: “A perturbação desses rostos justifica que nos aprofundemos, doravante, na visualidade das imagéticas de Barthes e Godard, quando fixadas no terrível”.



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