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segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Um livro sempre inventa seu próprio leitor

Fonte: Portal A Tarde

Romancista, contista e editor cearense, radicado no Recife, Sidney Rocha, 50, comemora este ano quatro décadas de estrada literária, com a indicação ao Oceanos (antigo Portugal Telecom) por Sofia, uma ventania para dentro - publicado originalmente pela Ateliê editorial e relançado pela Iluminuras no ano passado - e o lançamento de Fernanflor, seu novo romance, que lhe custou seis anos de escrita e onde propõe uma refinada reflexão sobre as fronteiras entre o bem e o mal, e a face sempre sedutora da manipulação. Vencedor em 2012 da 54ª edição do Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, considerado o prêmio literário mais tradicional e prestigiado do país, no gênero contos, com O destino das metáforas, Sidney é autor ainda de Matriuska (contos, Iluminuras, 2009) e do livro de poemas Mais que o rei (1991). Em passagem rápida pela Bahia, onde lançou Fernanflor, na livraria e café Boto Cor-de-Rosa, na Barra, o autor fala sobre aspectos da criação, literatura contemporânea, regionalismo e preconceito literário contra nordestinos, a ciranda extenuante de eventos literários, que costuma envolver os escritores e os transformar em estrelas, e a crise da narrativa em um mundo em que todos são narradores. "Não sei quanto aos outros, mas venho lutando para que um mundo inteiro de narradores não se perca no mundo tão cheio de informação e opiniões sobre tudo".

Há uma coisa que sempre me intrigou em você, antes mesmo de ler seus livros. Aquela afirmação, "eu estou pronto", que era sua saudação de e-mail. Em que medida sentia-se pronto ou sente-se pronto hoje como autor? Afinal, há um sentir-se pronto em literatura?
Sim, o estar pronto pode significar estar de prontidão, não daquilo que se entende como resolvido, amadurecido, acabado. Na medida em que compreendo com humildade o quanto há por aprender. Com os vivos, mas com os [autores] mortos, principalmente.

Edward Said fala, em um dos textos do livro Humanismo e crítica democrática (Cia. das Letras/2007), sobre uma certa convenção de escritores na qual tentou-se de tudo, e em vão, para desestimular as pessoas que se diziam escritores, e que eram muitas, dezenas, centenas. O que pensa que estimula essa busca por ser escritor?
Penso que o estímulo de um escritor é interior. Ele se sente impelido por vontade de fazer isso, por gostar de fazer isso. Não há nenhum outro motivo. Nada de esotérico nem de secreto nessa atividade. É menos do que uma vocação, é algo muito mais simples: gosto, volição, voracidade. Não há nenhuma necessidade de estímulo, pois trata-se de algo demoníaco, no sentido antigo do termo, ou de mania - também no sentido antigo. Uma distração ou um vício como outro qualquer.

Sim, um vício, mas o quê, provoca, ao longo dos séculos, tal vício?
Não sei quanto aos outros, mas venho lutando para que um mundo inteiro de narradores não se perca no mundo tão cheio de informação e opiniões sobre tudo. De modo muito estranho, penso que as narrativas estão desaparecendo e, nesse ponto, falo da memória das pessoas, desse mundo doente de que fala Fernanflor. Além de uma voz, busco uma respiração distinta nisso tudo. E, para isso, é preciso essa vontade de ferro, de que falei. De todo modo, mesmo mediocremente, sempre teremos reportagens sobre a existência humana, claro, coisas que cabem em romances ou acham caber. Wilde dizia que os livros excelentes já foram escritos. Concordo. E já há livros vazios o suficiente, também.



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