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quarta-feira, 18 de maio de 2016

UMA CATÁSTROFE INÉDITA

O texto a seguir é a introdução do livro O sentimento da catástrofe: entre o real e o imaginário, da crítica literária francesa Annie Le Brun, e será publicado no Brasil pela editora Iluminuras.

Em menos de duas décadas, as reflexões sobre a catástrofe, tema cada vez mais privilegiado, se tornaram quase um gênero, passando da deploração às instruções de uso. É bem verdade que a atualidade vem contribuindo para isso, ao renovar prodigamente os exemplos. Estes, por sua vez, não são de pouca monta, já que o leque de nossas desgraças recentes — sejam elas de origem química, alimentar, climática, industrial ou nuclear — se abre entre as catástrofes maiores que foram Chernobyl e Fukushima.

No entanto, se Chernobyl, com seus terríveis efeitos de longo prazo, continua a alimentar a crônica, não deixa de surpreender o tratamento relativamente discreto reservado a Fukushima, ainda mais se comparado ao tsunami tailandês de 26 de dezembro de 2004 ou mesmo à erupção do vulcão islandês Eyjafjöll, de abril de 2010. Sem dúvida, levando-se em conta os perigos evidentes e potenciais ligados às catástrofes de Chernobyl e de Fukushima, as autoridades russas e japonesas fizeram a mesma opção de filtrar a informação a fim de maquiar às pressas a flagrante responsabilidade que lhes cabia.

Assim, com o mesmo objetivo de simular que os estragos estavam sob controle, ambos os desmentidos pretendiam reiterar uma ilusão cada vez mais mentirosa, ao ponto de, nos dois casos, a opinião pública já não mais conseguir distinguir o desmentido da mentira.

Assim, inaugurou-se um processo de indiferença ao pior que ainda hoje caracteriza a recepção de Fukushima, processo induzido pelas sucessivas reclassificações do acidente, ao qual se atribuiu a princípio o nível 4 para, alguns dias mais tarde, ser reavaliado como de nível 5 e depois, enfim, de nível 7. Avaliação de gravidade equivalente àquela de Chernobyl, mas que tampouco teve o efeito tranquilizador de esclarecer aquilo que definitivamente não está esclarecido, dando testemunho de uma nova espécie de anestesia que vai de par com a impossibilidade de se representar o que está se abatendo sobre nós. Fala por si a desproporção entre os comentários sobre Fukushima e todo barulho em torno do tsunami tailandês, ou da erupção do vulcão islandês, da mesma forma como o número de participantes nas manifestações contra a energia nuclear após a explosão de Fukushima foi paradoxalmente proporcional à sua distância do teatro de um acontecimento cuja gravidade pôde passar por incerta, ainda que extrapole tudo o que poderíamos imaginar. Por que, convém perguntar, o tsunami que enlutou as férias de Natal de turistas europeus ou as cinzas do vulcão que interromperam por várias semanas metade do tráfego aéreo terão merecido mais atenção que o tremor no Japão? Não foi este último, então, com o dilaceramento de quatro reatores nucleares, que desencadeou fenômenos imprevisíveis de contaminação, fenômenos estes considerados atualmente ainda mais alarmantes que os de Chernobyl?



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