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segunda-feira, 23 de maio de 2016

O sentimento da catástrofe

ANNIE LE BRUN
traduçãoFÁBIO FERREIRA DE ALMEIDA

Imaginada ou real, a catástrofe possui a força prodigiosa de surgir como a objetivação daquilo que nos excede. É justamente por se desdobrar em arcobotante entre o real e o imaginário que ela continua nos atraindo como uma das mais belas linhas de fuga do espírito humano.

Aliás, não conheço infância digna desse nome que não tenha escalado massivos de trens descarrilhados, que não tenha navegado por rios de lava, que não tenha constituído um reino sobre cidades libertadas... O sentimento da catástrofe é, sem dúvida, a primeira figuração da fenda do imaginário no mais profundo de nós. Fenda constante, cujo desenho é uma forma de interrogar nosso destino, tanto quanto de responder a ele. Mas também um expediente paradoxal para enfrentar, tentando representá-las, as situações da mais extrema desordem ética. No mais, ainda que vista como punição divina que serve para confortar a ordem cristã, não há fim do mundo que não remeta a essa necessidade de figurar um caos, cuja emergência é, para nós, sempre esperada e temida.

Precisamente por essa razão, o terremoto de Lisboa constitui um acontecimento capital que, marcando o fim da concepção religiosa da catástrofe, abre para a liberdade de um imaginário catastrófico pululante que se revelará o único meio de apreender um mundo em vias de escapar a toda compreensão. Pois esse desastre é, antes de tudo, a catástrofe que rompe o acordo extraordinário - jamais realizado antes dos anos 1740-1750 - entre filósofos, moralistas, religiosos e poetas em defesa do otimismo, reunindo todos em torno de uma visão de mundo tão moderadora quanto racionalizante.

De Leibniz a Pope, passando por Madame du Châtelet, von Haller e mesmo Kant, não há, realmente, doutrina nem sistema que esteja à altura sequer de evocar a amplitude do que se produziu com o aniquilamento de Lisboa. Essa cidade rica, acolhedora, pitoresca, mas ainda muito devota, repleta de igrejas e de conventos, de repente foi devastada pelo terremoto, ao qual se seguiu imediatamente uma inundação, e, por fim, ainda foi pilhada por seus próprios habitantes. A verdadeira catástrofe é que o impensável aconteceu, dado que Deus, a natureza e os homens revelaram-se de um só golpe totalmente diferentes do que se havia pensado que eram até então. Impressionante também, mas não do mesmo modo que as casas em escombros, os monumentos destruídos ou as igrejas ao chão, é esse amontoado de teorias fracassadas, de ideias em ruínas e de crenças esfaceladas que fazem com que o desastre de Lisboa deixe o século desamparado.

Estou convencida de que o sentimento da catástrofe nasce aí, nesse horizonte transtornado, a partir do momento em que tal sismo sem precedentes, despedaçando repentinamente balizas religiosas e filosóficas, faz surgir, catastrófica, a questão do sentido, cujas infinitas repercussões evocam, em reação, o excesso de imaginário. Questão verdadeiramente catastrófica: basta que ela se coloque para que, súbito, desabem as construções éticas e os sistemas de representação.

Assim, em menos de vinte anos a sensibilidade europeia é invadida pela figuração de desastres imaginários que têm por característica essencial fazer emergir a catástrofe em estado puro, livrando-a de toda referência religiosa, como se o recurso ao imaginário servisse, antes, para liberar o espírito de suas travas, a fim de tornar possível pensar de outro modo. Eis que às clássicas representações do Dilúvio ou às tradicionais figurações do Apocalipse substituem-se, depois do impressionante "Recueil des plus Belles Ruines de Lisbonne", de Jacques-Philippe Le Bas (1757), inúmeros quadros de tempestades (Vernet), de naufrágios (Pillement), de ventanias (Lautherbourg), de vulcões (Voltaire), de enchentes (Valenciennes), cada um menos realista que o outro, como se para figurar, por sua desmedida imaginária, o impossível enfrentamento com um sentido que jamais cessará de se esquivar.

Não é por acaso que a Europa, no mesmo momento, se veja tomada por um repentino fascínio por Herculano e Pompéia, aos quais se começa a prestar atenção depois de uma espera de dezoito séculos. Com efeito, em 1754 são empreendidas escavações que, descoberta após descoberta, resgatam a cidade sepultada, e as imagens e perspectivas revolvidas são tantas que organizam um verdadeiro teatro da catástrofe. Como se uns e outros fossem aos poucos reconhecendo ali o cenário que os liga de novo a um mundo cuja compreensão lhes havia escapado. Um gosto contemporâneo por livros sombrios, por tempestades e ventanias - que à época são chamados de romances negros ou góticos - também carregam, nas profundezas do imaginário, o pressentimento da imensa mudança de sensibilidade que vai corroendo a época das Luzes.

Cabe, portanto, perguntar o que pretende nossa época ao deixar de levar em conta uma catástrofe que lhe serviu para imaginar, desde a Segunda Guerra Mundial, as mais diversas formas de interrogar um universo privado de sentido. Será esse o meio de dissimular, mas igualmente de evocar, uma dificuldade análoga àquela que o fim do século 18 experimentava para conceber o mal num mundo em que a referência divina se esvanecia? Dificuldade para a qual a filosofia das Luzes, vale lembrar, logo se revelou incapaz de dar uma resposta, mas que Kant, Schelling e Hegel, cada qual a seu modo, decidiram enfrentar indiretamente por meio da noção de negatividade, que parece ter sido concebível apenas depois do imaginário catastrófico ter logrado livrar a consciência europeia da impregnação ética de um princípio do mal.

Não há dúvida de que as atuais variações sobre o tema da devastação procedem do desejo de imaginar, juntamente com a insensata esperança de conjura-los, os resultados ainda imprevisíveis de uma situação cuja complexidade nosso pensamento não consegue alcançar: entre os campos de extermínio nazistas ou soviéticos e as calamidades nucleares do mundo dito livre, sem mencionar a poluição planetária, haverá ainda sentido para a noção de escolha? Porém, ainda que se trate de uma dispersão de pontos de apoio essenciais – comparável à que resultou da crescente incredulidade no fim do século 18 –, seu esclarecimento é completamente distinto. Há devastação e devastação: a que hoje nos ocupa não resulta, como no século 18, de catástrofes naturais, mas de catástrofes provocadas devido ao menosprezo pelo equilíbrio da natureza. Com ou sem razão, desmesura ou excesso parecem já não mais nos amedrontar, ao passo que receamos os efeitos mais ou menos previsíveis de uma natureza ultrajada. A grande novidade agora é que, dia após dia, os fatos vêm confirmar e amplificar esse medo.



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