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terça-feira, 23 de junho de 2009

O Flautista de Browning

Bela edição traz de volta versão jocosa do poeta inglês para a lenda do músico de HamelinA obra de Robert Browning (1812- 1889), considerado um dos maiores poetas ingleses da era vitoriana, nunca foi muito divulgada entre nós. Salvo uns “Monólogos dramáticos”, editados em Portugal em 1980, em tradução de João Almeida Flor, há muito pouco, em nossa língua, de sua extensa produção de poeta e dramaturgo.Antes, por volta de 1912, sabia-se do poema “A cidade e o campo” (no original “Up at a Villa Down in the City”), traduzido por Fernando Pessoa. E outro português, A. Herculano de Carvalho, em sua antologia “Musa de quatro idiomas”, de 1947, nos dera dois poemas de Browning (“Love in a life”, “Amor numa vida”, e “Life in a love”, “Vida num amor”). Um dos maiores gênios poéticos desde Dante, segundo Pound
No Brasil, José Lino Grünewald, em “Grandes poetas da língua inglesa do século XIX”, numa 2 a edição de 1988, irá comparecer com dois poemas, o patriótico “Home thoughts, from abroad” (“Lembranças longe da pátria”), e o romântico “Meeting at night” (“Encontro à noite”). Não nos esqueçamos, é claro, que, desde os anos 70, o leitor podia apreciar um trecho do hermético “Sordello”, de Browning, no “ABC da Literatura”, de Ezra Pound, traduzido estilisticamente por Décio Pignatari. Mas parece que é tudo, assim, fragmentário.
Aliás, esse mesmo Ezra Pound (aqui muito conhecido e divulgado no eixo São Paulo-São Paulo) tinha verdadeira obsessão pela poesia de Browning, a quem considerava um dos maiores gênios poéticos desde Dante, e cuja influência em sua própria obra jamais negou (“e sobretudo venho de Browning”, disse ele em alemão: “Und überhaup stamm’ich aus Browning”), apreciando-lhe principalmente a técnica do verso, seus “macetes” rítmicos e rímicos (“his bag of tricks”, nas palavras de Pound). Ezra imergiu de cabeça no poema “Sordello”, procurando decifrá-lo, decodificá-lo, despoundizá-lo, a ponto de num de seus “Cantos” exclamar “Ah! Sordello, meu Sordello!”, referindo-se mais à criação de Browning do que ao personagem provençal de mesmo nome.
Curioso é que, com tantos discípulos de Pound por aqui, nenhum deles se tenha interessado em traduzir a obra daquele que tanta preocupação causou ao seu mestre.
Mas, diga-se, mesmo na Inglaterra a poesia de Browning é “escassamente lida hoje em dia”. A única tradução de um poema de Browning, de curso mais longo, de que dispomos é uma peça, aparentemente infanto juvenil, escrita para o filho enfermo de seu empresário ator William Macready, em que o poeta apresenta uma versão jocosa e pirotécnica da famosa lenda do Flautista de Hamelin. Essa história, supostamente ocorrida em 1284 (1376, segundo os versos de Browning), vem povoando o imaginário infantil através das gerações, principalmente depois de sua genial transposição literária pelos Irmãos Grimm. Inúmeras são as versões, adaptações e curtas-metragens que nela se inspiraram. Browning aproveitou a lenda para elaborar um poema de 15 estrofes
e 303 versos de métrica irregular, aparentemente destinado às crianças, mas que pelas suas qualidades poéticas interessa igualmente o leitor habitual de poesia e mais ainda os que se dedicam às intrincâncias do fazer poético.
Admirável tradução brasileira para uma lenda ainda atual
Texto de tradução difícil, que exige grande conhecimento do idioma, bem como da técnica do verso, considerando sua métrica peculiar e suas rimas extravagantes, o poema de Browning encontrou no brasileiro Alípio Correia de Franca Neto seu tradutor ideal. Conhecido desde 1993, reeditado em 2003, “O flautista de manto malhado em Hamelin” aparece agora em atraente edição da Iluminuras, com ilustrações de qualidade equivalente devidas a Carmen Thiago. Diversamente do tradutor espanhol Claudio Frydman, que apenas verteu o “conteúdo” da história sem atentar à “forma” como foi contada, o nosso Alípio Correia não se detém diante das chamadas “rimas equívocas” (por exemplo “from mice/promice”, que ele corresponde com “por essas/promessas”); construções do tipo “Hamelin/camel in, richin/kitchen, bore me/o’er me” confrontadas com “rimas em cascata” tais como “Além da/lenda”, “Alcaide/ai de”, “Enfim o/arminho”, nem deixa passar as inúmeras aliterações como esta “In fifty different sharps and flats”, admiravelmente recuperada como “Em mil distintos sustenidos e bemóis”.
As crianças se divertirão com a história, outros poderão analisar a mestria dos versos, mas todos certamente se darão conta da atualidade da lenda: diante de um flautista que livra a cidade infestadade ratos e administradores ineptos como não pensar na Brasília de hoje?
IVO BARROSO é poeta e tradutor
Fonte: O globo



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