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terça-feira, 20 de setembro de 2016

O inacreditável mundo de Edward Lear, o pai da literatura nonsense

Obra apresenta uma reunião de diferentes trabalhos bem arrojados, em que um elenco de personagens se embrenha pelo mundo do nonsense leariano

Márwio Câmara
Especial para o Jornal Opção

Edward Lear tinha tudo para ser um arquétipo nômade em terras es­tran­geiras, se não fosse o talento de desenhista e escritor que o levaria à rápida e prestigiosa fama internacional. Os problemas que acometeriam desde cedo a sua saúde, como a asma e a bronquite, fizeram Lear perambular por diferentes países da Europa numa tentativa de lhe assegurar um abrandamento do quadro clínico.

Tais experiências do artista como viajante — conhecedor de diferentes culturas — influenciaram fortemente sua produção. Tanto nas ilustrações quanto em seus textos, crianças, jovens, adultos, bichos e plantas humanizadas, além de outras figuras de natureza diversa, passam a circular dentro do mesmo universo. Essa ponte, que entremeia a realidade com o inverossímil, podendo ser chamado de fantástico ou absurdo, se estabelece de forma soberana dentro da concepção estética do escritor inglês.

O termo nonsense surgiu na Inglaterra vitoriana do século 19, através do livro “A book of nonsense”, do próprio Lear, publicado em 1846. Ao lado de Charles Lutwidge Dodgson, mais conhecido como Lewis Carroll, autor de “Alice no país das maravilhas”, foram os primeiros a produzir uma literatura que consolidaria o gênero e influenciaria outros autores pelo mundo. A temática nonsense se institui dentro de uma ótica sem nexo, perturbadora e, por vezes, de veia humorística, tendo o surrealismo e o dadaísmo interligados à sua fonte.

É dentro dessa atmosfera que prevalece a seleta “Conversando com varejeiras azuis”, de Edward Lear, traduzido por Dirce Waltrick do Amarante, até então inédito no Brasil. A caprichada edição da Editora Iluminuras apresenta-nos uma reunião de diferentes trabalhos bem arrojados, ilustrada em sua grande maioria pelo próprio autor. No livro, um elenco de personagens se embrenha pelo mundo do fantástico, desestabilizando as fronteiras do real e do inverossímil.

Não é à toa que na primeira historieta, “A história de quatro criancinhas que deram a volta ao mundo”, um grupo de crianças resolve fazer uma viagem de barco além-mar, tendo uma gata no comando do barco e uma espécie de criatura mostrenga, chamada Manha-Artimanha, para preparar o chá e as refeições dos respectivos passageiros. Uma enorme chaleira é levada no transporte, que passa a exercer também a função de ponto de recolhimento das crianças.

Por cada país que o grupo percorre, aventuras extraordinárias acontecem, fazendo da narrativa um divertido passeio pelo mundo da imaginação. Decerto, o escritor Monteiro Lobato, com todo o seu vasto repertório literário, tenha se contagiado por tal influência nonsense de Lear e Carroll para compor o cosmo mais emblemático da literatura infanto-juvenil brasileira: o Sítio do Picapau Amarelo. O diálogo entre a obra de Lear com os clássicos de Lobato é inevitável.

Divido em seis partes, possuindo diferentes estruturas textuais, compostas por historietas, poemas e até receitas de culinária nonsense, “Conversando com varejeiras azuis” nos apresenta um rico painel do fantástico mundo de Lear. Em “Algumas espécies de botânica nonsense”, por exemplo, encontramos as mais variadas espécies de plantas imaginárias que se dualizam em animais e objetos inanimados, como é o caso de Latia Uivaltia, uma planta com várias cabeças de cães; ou de Tickitackia Horologica, neste caso outra planta que possui em suas extremidades um aparato de relógios. Cacatoa Superba, por exemplo, figura-se em uma flor que possui um pássaro da espécie cacatua em seu centro.



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