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sábado, 17 de setembro de 2016

Crítica: ‘Conversando com varejeiras azuis’, de Edward Lear, mestre do nonsense

POR MYRIAM ÁVILA

RIO – O inglês Edward Lear (1812-1888), um dos mestres do nonsense vitoriano, nunca se tornou tão conhecido quanto o seu contemporâneo Lewis Carroll, criador de Alice. Não tendo criado uma personagem tão envolvente e capaz de provocar identificação positiva no público leitor quanto a menina de 7 anos que passeia pelo País das Maravilhas, tendo apenas escrito textos curtos, poucos deles narrativos, Lear deve sua mais modesta fama à mais de uma centena de limeriques, um tipo de versinho rimado de gosto bem popular. É inegável, porém, para quem conhece bem a sua obra, que ele merece tanto quanto Carroll o título de mestre do nonsense, na mais estrita concepção do termo. Como as de Carroll, as criações de Lear têm um apelo bem direto ao público infantil, mas também calam fundo no leitor adulto, que ali pode reconhecer traços de crítica social e matéria para reflexão filosófica. A leitura mais superficial garante diversão e fisga o leitor de imediato. O inesperado dos achados learianos impede que o leitor se canse da brincadeira. Com quase 50 anos de existência, a variada obra de Lear mostra-se cada vez mais viva e atual.

E é decerto variada sua produção: a par dos limeriques, há também canções mais longas, narrativas de viagens impossíveis, catálogos de exemplares botânicos de nomes estrambóticos e até mesmo um manual de cozinha nonsense. Lear foi um pintor e desenhista conceituado e sempre ilustrou com um traço caricatural os seus escritos, dando vida visível e audível a personagens estranhíssimas que, nas canções e nos contos, unem humor e lirismo de forma inextrincável. Nos limeriques, prevalece uma visão mais ácida do mundo, com um desfile de excentricidades e atrocidades protagonizadas por criaturas desprovidas da menor empatia por seus semelhantes. Aliás, os semelhantes dos limeriqueanos são, em geral, animais dos mais variados tipos.

Dirce Waltrick do Amarante tem feito muito para difundir essa obra singular, embora os limeriques já tenham merecido a atenção de vários tradutores brasileiros, inclusive o poeta José Paulo Paes. No seu segundo livro de traduções de Lear, “Conversando com varejeiras azuis”, a especialista faz uma seleção representativa dos seus textos em verso, prosa e imagem que cobre vários aspectos da criação leariana. Como tradutora nada sisuda e que faz questão de se divertir com seu trabalho, Dirce demonstra estar muito à vontade ao reinventar os nomes próprios, onomatopeias, adjetivos e verbos inéditos que colorem a linguagem nonsense de Lear. Quangle-Wangle vira Manha-Artimanha, a misteriosa planta Barkia Howlalaudia vira Latia Uivaltia, “meloobious” é emulado por “somrosa”. Podemos sentir o prazer com que foi feita a tradução.

Os textos rimados também funcionam bem, embora me despertem pruridos de tradutora, já que faço parte daquele grupo de chatos que acha que é preciso manter estritamente o ritmo do original, no caso de o poeta ter feito questão de obedecer a um metro. Por serem muito curtos (dois versos de três acentos, um de quatro divisível em dois de dois e o verso final de três acentos), é quase impossível refazer os limeriques, se se obedece tanto ao esquema de rimas como à métrica, sem perder a conexão estrita entre o desenho e o texto. Como o português não é rico em monossílabos como o inglês, os tradutores brasileiros recorrem ao alongamento dos versos, perdendo um pouco a graça do ritmo original. Também Dirce Amarante não o reproduz com fidelidade, mas parece atenta à agilidade que os versos precisam ter. Como a tradução lida com opções, todas elas implicando perdas, a desta obra, que pretende, basicamente, divertir, está entre as mais legítimas.



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