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quinta-feira, 27 de outubro de 2016

O homem na lua

Romance | Lewis Carroll

As crianças vieram de bom grado. Com uma delas de cada lado, aproximei-me do lugar ocupado por Mein Herr. “Você não se opõe à presença de crianças, espero?”, iniciei a conversa.

“Os velhos rabugentos e os jovens não podem viver juntos!”, o ancião replicou alegremente, saudando-nos com um sorriso cordial. “Olhem para mim, crianças! Vocês dirão que sou um homem velho, não é?”

À primeira vista, embora seu rosto me tivesse lembrado de um modo misterioso o do Professor, transmitia a impressão de ser decididamente mais jovem que ele; porém, quando sondei a extraordinária profundidade de seus grandes olhos sonhadores, senti, com uma estranha sensação de temor respeitoso, que era incalculavelmente mais velho; parecia observar-nos de uma época remota, séculos atrás.

“Não sei se ocê é um homem velho”, respondeu Bruno, quando as crianças, seduzidas pela voz amável, aproximaram- se um pouquinho mais dele. “Acho que cê tem oitenta e três.”

“Ele é muito preciso!”, exclamou Mein Herr.

“E ele por acaso acertou?”, eu perguntei.

“Existem razões”, replicou gentilmente Mein Herr, “razões que não tenho a liberdade de expor a você, que me impedem de mencionar definitivamente pessoas, lugares e datas. Só vou me permitir uma observação: o período de vida entre cento e sessenta e cinco anos e cento e setenta e cinco anos é especialmente seguro.”

“Como foi que você chegou a essa conclusão?”, eu indaguei.

“Assim: vocês considerariam a natação um passatempo seguro, se nunca lhes chegasse a notícia de que alguém se afogou. Não creio que me equivoco ao pensar que você ainda não ouviu falar de alguém que tivesse morrido entre essas duas idades!”

“Compreendo o que você quer dizer”, comentei. “Mas temo que você não poderá provar que a natação é um passatempo seguro, baseando-se no mesmo princípio. Não é raro ouvirmos a notícia de que alguém morreu afogado.”

“No meu país”, respondeu Mein Herr, “as pessoas jamais se afogam.”

“Não há águas suficientemente profundas?”

“Claro que sim! Mas não podemos afundar. Todos somos mais leves do que a água. Deixe-me explicar”, ele acrescentou, percebendo meu ar de espanto. “Vamos supor que vocês desejem obter uma raça de pombos com uma forma ou cor determinadas. Vocês selecionam, ano após ano, aqueles que mais se aproximam desse ideal, e ficam com eles, mas se desfazem dos outros, não é verdade?”

“Exatamente”, respondi. “Denominamos esse processo de ‘seleção artificial’.”

“De pleno acordo”, disse Mein Herr. “Bem, nós utilizamos há séculos esse procedimento, selecionando sem cessar as pessoas mais leves; por isso, hoje, todo mundo é mais leve do que a água.”

“Então vocês nunca podem se afogar no mar?”

“Nunca! Só corremos esse risco em terra firme — quando assistimos, por exemplo, a uma peça de teatro.”

“Como é possível se afogar num teatro?”

“Nossos teatros são todos subterrâneos. Sobre eles, são colocados grandes reservatórios de água. Quando começa um incêndio, as torneiras são abertas e, num minuto, o teatro é inundado: a água chega até o teto! Assim, o fogo se extingue!”

“E o público também, imagino.”

“Esse é um assunto irrelevante”, Mein Herr replicou despreocupadamente. “Mas o público fica satisfeito de saber que, afogado ou não, é mais leve do que a água. Ainda não alcançamos o nível de fazer as pessoas mais leves do que o ar, mas estamos concentrando esforços nesse sentido. Dentro de mil anos ou...”

“O que cês fazem com as gentes que são pesadas?”, perguntou Bruno seriamente.

“Aplicamos o mesmo processo”, Mein Herr prosseguiu, sem tomar conhecimento da pergunta de Bruno, “em inúmeros outros casos! Estamos, por exemplo, selecionando bengalas: ficamos apenas com aquelas que se deslocam melhor, até conseguirmos obter algumas que possam andar sozinhas! Estamos também selecionando algodão cru, até conseguir que seja mais leve do que o ar! É um material realmente muito útil! Nós o chamamos de ‘imponderável’.”

“E é usado para quê?”

“Bem, principalmente para embalar objetos que devem ser enviados pelo Correio. Isso os torna mais leves do que o vazio, não percebem?”

“E como os funcionários do Correio calculam o valor que cada cliente deve pagar, para enviar seu pacote?”

“Essa é a parte mais interessante do sistema!”, Mein Herr exclamou exultante. “São eles que devem nos pagar: nós não lhes entregamos nada! Às vezes recebo cinco xelins para enviar um pacote.”

“Mas o Governo não se opõe a esse sistema?”

“Bem, faz algumas objeções. Afirma, por exemplo, que o sistema se tornará muito dispendioso, com o passar dos anos. Mas a coisa é absolutamente clara, segundo as suas regras: quando envio um pacote que pesa uma libra a mais que o vazio, pago três centavos; de modo que, naturalmente, se o pacote pesar uma libra a menos que o vazio, eu devo receber três centavos!”

“É realmente um artigo muito útil!”, concordei.

“Sim, mas até mesmo o ‘imponderável’ tem as suas desvantagens”, acrescentou Mein Herr. “Comprei algum outro dia e o guardei no chapéu; ora, quando tomei o caminho de casa, o chapéu simplesmente voou!”

“Cê hoje não tinha um pouco dessa coisa esquisita no seu chapéu?”, Bruno quis saber. “Sílvia e eu vimos cê na estrada, e seu chapéu tava lá em cima! Não é, Sílvia?”

“Não, era uma coisa bem diferente”, explicou Mein Herr. “Como caía uma ou outra gota de chuva, coloquei o chapéu na extremidade da bengala — como um guarda-chuva, compreendem? E quando eu quis avançar pela estrada”, ele continuou, voltando-se para mim, “fui surpreendido por...”

“...um chubisco?”, perguntou Bruno.

“Bem, parecia-se mais com um rabo de cachorro”, replicou Mein Herr. “Foi uma coisa curiosíssima! Senti algo esfregar-se afetuosamente no meu joelho, mas, quando olhei para baixo, não vi nada! Contudo, a um metro dali, havia um rabo de cachorro abanando sozinho no ar!”

“Oh, Sílvia!”, Bruno respondeu baixinho. “Cê não terminou de deixar ele de novo visível!”

“Sinto muito!”, disse Sílvia, parecendo sinceramente arrependida. “Quis esfregar todo o seu dorso, mas a gente estava com tanta pressa! Iremos terminá-lo amanhã. Pobre cachorrinho! Provavelmente não ganhará o seu jantar esta noite!”

“Claro que ele não vai ganhar, Sílvia!”, disse Bruno. “Ninguém dá um osso prum rabo de cachorro!”

Mein Herr olhou para as duas crianças com estupefação. “Não compreendo o que vocês estão dizendo”, ele confessou. “Como eu tinha me perdido, consultei o meu mapa de bolso, mas então deixei cair uma das minhas luvas. Contudo, essa coisa invisível que roçara o meu joelho me trouxe a luva de volta!”

“Claro que ele trouxe!”, disse Bruno. “Ele gosta muito de pegar essas coisas.”

Tão grande era a perplexidade de Mein Herr que julguei conveniente mudar de assunto. “Um mapa de bolso é muito útil”, observei.

“Essa também foi uma das coisas que aprendemos no seu país: a cartografia”, disse Mein Herr. “Mas demos aos mapas um emprego muito mais amplo. Qual seria, na sua opinião, a maior escala de mapa realmente útil?”

“Cerca de seis polegadas por milha.”



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